Não sei exatamente por onde começar. Queria te contar algo aleatório antes de começar a falar, até você ficar distraída o bastante pra eu conseguir dizer o que ainda não sei; eu falaria sobre alguma coisa engraçada ou algum filme que vi na noite anterior ou sobre uma banda que é genial ou sobre o final de temporada de uma série que me fez chorar feito uma criança. Talvez, antes de começar a te fazer rir, eu tentasse primeiro te contar a história de alguma menina alemã que corta o cabelo de todos da casa; contaria detalhes sobre um escritório – que não é bem um escritório – que fica entre o segundo e o quarto andar de uma casa pequena na Lapa, onde nunca estive; abriria a janela do quarto pequeno das empregadas de uma mansão em Pittsburgh, para onde uma daquelas personagens quer fugir com a mãe – lugar que não me deixa saber. Depois, para ligar a nossa história a alguma dessas outras pessoas e lugares, tentaria te lembrar de quando fomos comprar quadros na feira para a casa que um dia teremos porque você disse uma vez que a última coisa que você quer é uma casa com paredes vazias; ou do dia em que fizemos coisas que sempre fazemos, mas que por um mínimo gesto diferente vindo de você, eu não soube mais o que fazer e, por um momento, achei estivesse tudo perdido. Eu te lembraria da música que tocava no carro que atropelou a nossa bicicleta com o cesto cheio de goiaba vermelha, que você apanhou só porque eu gosto delas meio mornas às cinco da tarde, quando o sol parece se arrepender de deixar seu rosto sarapintado ainda mais vermelho durante os nossos passeios na orla; a memória desse dia me faria rir enquanto eu me esforçasse para não esquecer de nada, nem mesmo da verborragia que tive com o motorista daquele Passati que tocava Bob Dylan, enquanto você tentava reunir as goiabas que não tinham sido amassadas de volta no cesto, como se estivesse realmente se sentindo ofendida e eu não desse a mínima para o fato delas estarem no chão; pararia de escrever um pouco para me esforçar e não me esquecer de que esse fora dos dias mais bonitos, desde o caminho de volta, com a bicicleta – e o pneu dianteiro em formato de oito – se contorcendo e convergendo o tempo todo para fora do passeio, à noite que confortou duas esfoladas e foi dócil quando a necessidade de proximidade não deixou que a dor sutil fosse maior que a vontade de permanecerem. À lembrança dos melhores dias, me ocorreria alguma da infância que eu gostaria de te contar porque sei que, se fôssemos amigas, eu te amaria desde sempre; descreveria as inúmeras vezes em que perdi noção de espaço e realidade depois de pedir ao meu pai que me rodasse para que eu sentisse minhas pernas se soltarem do restante do corpo; te contaria sobre a cabana que ele montava todas as noite segurando um cobertor com os pés e as mãos, fingindo que cada pontinho colorido era um planeta. Por fim, te explicaria por meio de alguma analogia boba, que não faço ideia de como te falar que isso tudo sou eu e que agora parece ser você. T.S.Eliot disse – li em algum dos textos que te mandei – que quando um quadro com uma estética nova chega em uma galeria onde estão inúmeros outros quadros, a concepção que aquele traz a esta muda a perspectiva de toda a galeria, alterando irremediavelmente a maneira de ver as outras obras; os três tempos dessa vida foram alterados desde que a sua presença passou a fazer parte do que guardo de importante, como se tudo tivesse esperado o tempo todo para fazer sentido junto, com você, com o que penso e com o que não vivi e ainda nem conheço. Metade de vida que está inteira. Se agora disser que entende, prometo ser uma curadora zelosa.
Bazar convida: Maeli Caesar:
Eu sempre quis ter uma vida sem despertadores, acordar numa segunda-feira ensolarada ou chuvosa sem zunidos estridentes, sem tic-tacs frenéticos.
A vida não espera ninguém e o tempo me levou com ele, sempre vestido de pressa, do despertar desesperado e do som caótico que me protegia dos pensamentos menores. Corri para não ficar olhando a vida passar.
De repente eu percebi a vida mais lenta, agora esperando que eu me levante vagarosamente da cama para ir ao banheiro lavar vagas idéias de noites longas e despertas.
Eu freqüentemente vou à sala, ouço alguma música no repeat, na intenção de encontrar a pressa que o tempo resolveu parar de ter.
Ontem, anteontem, hoje? Procuro os despertadores e ouço o meu coração acelerado, eu me pergunto a todo o momento se já almocei, tomei café da manhã ou se estou realmente com fome.
Voltar no tempo, saber contar as horas, tudo isso me soa grande e bonito, penso que as utopias sempre tiveram algo a ver com o tempo. Chamo alguém que me diz que o problema, como foi dito há pouco – Foi? Eu finjo que sim, parece que é mau, paro de compreender ali. Pergunto novamente sobre o almoço que não sai – A Sra. já não está com fome, e eu me concentro para fazer o ronco no estômago desaparecer, para tentar me lembrar do alimento que eu tanto desejo e que dá espaço a vontade mais urgente, preciso ir ao banheiro. Volto, vou me deitar.
Tenho sonhado com uma sala repleta de cucos e durante repentes de lucidez misturo o mal de não saber contar os meus dias vindouros com a falta de capacidade para compreender os passados. Grito em pensamento sem que ninguém me escute, fico na dúvida se já compartilhei o meu sofrimento e prefiro me calar, justifico assim a falta de resposta, o adeus que não vem.
Amanhã darei corda ao despertador que vejo no criado-mudo, se houver tic-tacs e alardes, voltarei a dormir, o tempo não permitirá atitudes contrárias. Talvez durante a tarde, eu me pergunte se ouvi realmente um sinal ou se já é hora de dormir, esvaziar a cabeça, deixar o tempo correr.
Certa vez me disseram que o tempo passa como uma lamparina sobre os nossos dias e faz surgir tudo o que existe, fecho os olhos apesar da luz acesa.
Acordei há pouco, gostaria de tomar um belo café-da-manhã.
Arquivado em convidados
Seção: Bazar convida
Preocupação com o meio ambiente ou engodo?
Eu era garoto e ia com o meu saudoso pai ao armazém.
Ficava encantado com as latarias e garrafas de vidro cuidadosamente arrumadas nas prateleiras atrás do balcão, forrado de mármore. À frente ficavam as sacarias com os cereais. Arroz, feijão e outros ficavam em sacos de sisal ou de algodão com a boca enrolada. Havia ainda as batatas acondicionadas da mesma forma tudo servido em sacos de papel e pesados em uma balança de balcão. Banha e manteiga em latões eram embalados em papel celofane.
Uma vez fechada a conta, era feito um embrulho em papel manilha amarrado com uma corda fina e resistente de sisal. Um pacote bem feito e com uma alça para facilitar o transporte. Sacolas de lona ou de palha transportavam mercadorias mais frágeis.
Cresci um pouco e fiquei encantado com um “Peg Pag” inaugurado também perto de casa. Era uma nova forma de atender. Ou de não atender. O próprio “freguês” servia-se e se dirigia ao caixa. Muito mais rápido e eficiente. E esta tendência se firmou. Acabaram-se os armazéns.
A forma de embalar teve que se adaptar aos novos tempos. Os sacos de papel foram substituídas pelos de plástico, que permitem inspecionar melhor o conteúdo das embalagens. Papelão deu lugar ao isopor. Tudo muito “moderno”. As sacolas de lona ou de palha cederam lugar às sacolas de plástico.
Hoje chegou-se à conclusão de que a nova forma agredia ao meio ambiente. As sacolas plásticas que substituíram as de lona e de palha agora são proibidas… Certo. E o resto? Temos ainda as embalagens de cereais, açúcares e farinhas em sacos plásticos. O isopor recoberto de película plástica continua existindo para acondicionar carnes e legumes. Sacos plásticos continuam sendo utilizados para acondicionar verduras, batatas, cebola. Estas embalagens são boas para o meio ambiente?
Se queremos contribuir para o meio-ambiente devemos proibir a forma de comercialização e exigir a volta dos velhos e eficientes armazéns de esquina, com embalagens totalmente biodegradáveis.
Abaixo os supermercados por um meio ambiente melhor! Devemos exigir a volta dos armazéns e empórios da esquina de casa!
Arquivado em convidados
sobbing hiccup jazz.
Às quinze horas de ontem, Rita não fez nenhum comentário numa mesa de bar situado na Haddock Lobo. Às quatorze horas e cinquenta e nove minutos de ontem, Rita esvaziava os pulmões. Às quatorze horas e cinquenta e sete minutos de ontem, Rita engolia cerveja quente. Às quatorze horas e cinqueta e seis minutos de ontem, Rita lembrava de uma piada. Às quatorze horas e cinquenta e quatro minutos de ontem, Rita escutava Renato, o rapaz de personalidade forte e sagacidade invejável, contar um evento que nunca aconteceu. Às quatorze horas e cinquenta e dois minutos de ontem, Rita ouviu Cecília soluçar. Às quatorze horas e cinquenta minutos de ontem, Rita observava Conceição trocar os cinzeiros da mesa ao lado. Às quatorze horas e quarenta e oito minutos de ontem, Rita pensou em ir ao banheiro. Às quatorze horas e quarenta e cinco minutos, Rita precisava falar algo. Às quatorze horas e quarenta e dois minutos de ontem, Rita pensou em se despedir. Às quatorze horas e quarenta minutos de ontem, Rita estava quieta. Às quatorze horas e trinta e sete minutos de ontem, Rita fingia rir do comentário de Ângela. Às quatorze horas e trinta e dois minutos de ontem, Rita acreditou, como se acredita em qualquer coisa, que poderia ter uma boa tarde. Às quinze horas e dois minutos de ontem, Rita consultou a relógio duas vezes. Às dezessete horas e vinte dois minutos de ontem, Rita concluiu que a piada era muito boa e riu, no bairro de Santana, até às dezessete horas e vinte três minutos de ontem.
originalmente publicado em: minimalides
Arquivado em thais monteiro
Proposta para o mês de Fevereiro: Anacronismo
O erro de cronologia. Acontece quando um objeto, conceito, costume e outras tantas coisas são colocadas erroneamente no tempo. A ideia surgiu nas aulas de literatura clássica, que por ser a mais distante e menos conhecida dos alunos gerou a discussão de quão equivocadas podem ser nossas leituras acerca de determinados eventos.
Pensar na Julieta mandando um sms para o Romeu e dizendo “segura as pontas que eu já volto” parece muito pouco. O anacronismo interessante é aquele das ideias, dos pensamentos,do tempo com o espaço. Parece sempre um erro, um equivoco do escritor e do pintor, mas e se o causássemos, para efeito de sentido?
Arquivado em camila rodrigues
i.
Sentei-me no banco alto do balcão de alumínio da padaria e fixei os olhos na lista de preços com o logo da Coca-Cola colada na parede suja de gordura. Não lia a placa, apenas fingia que lia, para ter um pouco de tempo e reorganizar a minha mente. O dia estava nascendo, mas não havia sol. O céu antes negro agora ganhava um tom claro de cinza, as ruas do centro da cidade estavam vazias e o ponto de ônibus em frente abrigava duas pessoas sonolentas, apertando os agasalhos contra os seus corpos para escapar do frio. As letras na placa se tornaram manchas negras sem sentido algum e sem aviso uma das garçonetes tomou conta do meu campo de visão, sem dizer nada, sem nenhum sorriso, apenas esperando que eu fizesse o pedido. Um café com leite. A garçonete se virou, sem perguntar se eu gostaria de algo para comer e foi até a máquina grande de café. Pegou um copo lagoinha pendurado no porta-copos, colocou-o embaixo da torneira da cafeteira industrial, acionou-a esperando o líquido negro sair até completar três quartos do copo. Pegou a jarra grande de leite fervente e despejou o líquido em cima do café, lentamente, como se não quisesse perder nenhum instante daquela fusão de matérias. O líquido preto no primeiro momento ainda não permitindo a mistura, depois cedendo a sua transformação de cor e depois o movimento completo resultando no marrom claro. A garçonete trouxe a bebida até mim, colocando-a em cima do balcão. Segurei o copo pelas bordas apenas com dois dedos, soprei um pouco para amenizar a temperatura e dei um pequeno gole. Senti o calor da bebida percorrendo meu trato digestivo e se espalhando por todo meu corpo; apreciando o sabor aconchegante e caseiro da bebida. Demorei-me por vários minutos sorvendo o café com leite, sem pensar em nada, apenas no movimento de levar o copo aos meus lábios até trazê-lo novamente de volta ao balcão. No fim desse ritual, deixei uma nota de dois reais embaixo do copo e me dirigi ao ponto de ônibus, sem saber ainda para onde iria. Sentei-me no banco, olhando para os meus próprios sapatos, pensando em qual direção deveria tomar. Há quase vinte e quatro horas estava perambulando pelas ruas e ainda não me sentia pronta para retornar à minha casa. Continue lendo
Arquivado em júlia arantes
Primeiro Nome
“Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado.”
Beto Guedes
Segundo a minha mãe, minhas primeiras palavras foram: colher; Segundo o meu pai foram: papai; Já meu irmão não tem uma opinião ou lembrança definida ao certo. Tudo que ele me disse foi que quando eu contava com, aproximadamente, três anos, uma panela de feijão quente virou em mim e, depois de um certo momento de pânico, ele percebeu, enquanto eu comia o feijão que cobria o meu corpo, que talvez um milagre houvesse acontecido ali. Um milagre, que julgo à luz da razão, como uma panela nem tão quente assim; Segundo minha mãe, isso nunca aconteceu e, contando quase com 30 anos de idade, não tive oportunidade de confirmar com meu pai se a informação procede. Mas, juntando todos os fatos, a crença inabalável dos olhos tão certos de meu irmão e a minha fome ancestral, concluí que possivelmente a minha primeira palavra tenha sido: colher; e, nesse bolo infinito da collocation palatal, que a segunda tenha sido: papá.
Meu pai gosta muito de doce, minha mãe de salgado, meu irmão de batatas e eu de carne; Sabe-se lá por qual cargas d’água sempre gostei muito de bichos, mais especificamente daqueles peludos que necessitam de nós, como esses que toda criança pede de natal e põe um nome. Meu pai e minha mãe tinham aversão a esses bichos em apartamento pequeno e meu irmão, bronquite. Para amenizar a falta, meu pai comprou um pequeno aquário e um livro que explicava a vida dentro dele. Havia peixes de variadas espécies: espada, lebiste, paulistinha e um daqueles cascudos que servem para, naturalmente, limpar o limo que se acumula no fundo do pequeno universo. Eu achava interessante aquela mini versão de peixe-boi que, sem medo algum, se aventurava a grudar sua boca numa sucção vitral a qual resistia impassivelmente aos tremores oriundos dos nós dos dedos de uma criança ávida pela mínima interação. Continue lendo
Arquivado em thais monteiro
Proposta para o mês de janeiro: Animalidade
Comunhão, de Rodrigo Braga
Como muitos trouxeram seus trabalhos acadêmicos para o Bazar, resolvi também trazer o meu para ver o que surge a partir daí. Há uns semestres estou envolvida em uma pesquisa chamada “Animais, animalidade e os confins do humano”. Esse trabalho se propõe a ultrapassar a barreira de textos que vêem os animais apenas como objetos para alegorias (como “A revolução dos bichos”, de Orwell). A matéria de estudo aqui são textos que percebem os animais como sujeitos, que são sensíveis, inteligentes, que têm uma opinião sobre o mundo e que são dotados de uma racionalidade (ainda que diferente da nossa).
Todos nós lembramos da cadela Baleia, de Graciliano Ramos, o Quincas Borba, de Machado de Assis, o bestiário imenso de Guimarães Rosa: esse é o ponto de partida. Deslocando-me da análise de textos literários e filosóficos, acredito que será interessante ver uma produção artística desse tema com vocês.
Para servir de guia, abaixo estão duas citações e um vídeo (que vocês podem ignorar solenemente também):
“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão do horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do mundo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.” (COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 78)
“Nada, para dizer a verdade, nos é mais inacessível do que essa vida animal da qual somos resultantes. Nada é mais estrangeiro à nossa maneira de pensar do que a Terra no seio do universo silencioso, não tendo nem o sentido que o homem dá às coisas, nem o não-sentido das coisas no momento em que desejaríamos imaginá-las sem uma consciência que as refletisse. Na verdade, só arbitrariamente podemos supor as coisas sem a consciência, já que ‘nós’, ‘supor’, implicam a consciência, nossa consciência, aderindo de uma maneira indelével à presença delas. Podemos, se dúvida, nos dizer que essa adesão é frágil, já que a deixaremos de ‘estar lá’, um dia, mesmo, definitivamente. Mas o aparecimento de uma coisa nunca é concebível a não ser em uma consciência substituída da minha, se a minha desapareceu. É uma verdade grosseira, mas a vida animal, a meio caminho de ‘nossa’ consciência, nos propõe um enigma mais inquietante. Ao representarmos o universo sem o homem – o universo onde o olho do animal seria o único a se abrir diante das coisas, não sendo o animal nem uma coisa nem um homem – só podemos suscitar uma visão em que não vemos ‘nada’, já que o objeto dessa visão é um deslizamento que vai das coisas que não têm sentido se estão a sós, ao mundo pleno de sentido implicado pelo homem que dá a cada coisa o seu sentido.” (BATAILLE, G. Teoria da religião. São Paulo: Editora Ática, 1993. pp.21-2)
Arquivado em júlia arantes
Olho.
Já estava acordada há vários minutos, mas permanecia deitada em minha cama. De tempos em tempos ela aparecia em meu quarto gritando para que eu acordasse, que não sabia como eu conseguia viver daquele jeito, que eu não sabia reagir. O sol inundava o cômodo de maneira insuportável, provocando-me uma ligeira dor de cabeça. Lembrei-me do livro que li há exatamente um ano atrás: era um perigo se o sol batesse de maneira errada (ou certa) em meus olhos. Levantei-me preguiçosamente, afastando o gato que estava encostado em minhas pernas. Meu corpo inteiro doía, meus músculos todos contraídos. Acho que não sei mesmo reagir.
Sentei-me em frente ao computador e olhei com desânimo para o resto da escrivaninha. Vários livros amontoados a serem lidos. Não havia tomado banho no dia anterior, sentia-me suja, engatinhando-me em lama. E meu cérebro sempre mais rápido que o resto do corpo, sempre me massacrando e agora fazendo coro às vozes dela: É, você não sabe reagir. Peguei o primeiro livro ao alcance das minhas mãos. Comecei a folheá-lo e a lê-lo sem prestar muita atenção, apenas passando os olhos nas letras. “todo animal está no mundo como a água no interior da água”.
Desci a rua da minha casa, quente em exagero e percebi que minhas roupas não eram apropriadas para o verão que castigava. Uma hora e quarenta minutos depois de trânsito, abracei-o e o chamei para sentar no banco mais próximo. Já havia me desacostumado a conversar com as pessoas, depois de tantos dias sozinha em casa. Não sabia bem o que dizer, como iniciar uma conversa. Ele perguntou-me como eu estava, realmente esperando por uma resposta, não o protocolar ‘estou bem e você?’. Varri todo o meu consciente e tentei traduzir em palavras todos os sentimentos que estavam em mim, sem nenhum pudor. Não queria deixar nenhum resto, queria repassar-lhe tudo. Eu era consideravelmente boa nisso. Passava horas deitada em minha cama, olhando fixamente para o teto, tentando escavar-me, tentando categorizar tudo o que coletava. Obviamente eu não conseguia classificar tudo, pois muito do que estava ali não era sequer encontrado, mas sempre me senti na obrigação de continuar escavando e lutando comigo mesma (ou contra). Escrevi posteriormente em meu caderno de anotações que provavelmente aquele era meu grande problema. Construí um muro entre o mundo e eu mesma com a minha linguagem e a minha prepotência científica classificatória. Depois era a vez dele. Eu estava em cima do meu muro tentando classificá-lo também, tentando ajudá-lo. Será que eu estava sendo útil fazendo isso? Queria apenas ouvi-lo. Ficamos por horas conversando em um banco escondido da chuva no meio das árvores, depois em uma lanchonete, depois no meio da chuva, depois em um café, depois nas ruas vazias, depois no meu ponto de ônibus. Ocasionalmente ele tirava um cigarro do bolso e fumava tentando não deixar a fumaça ir até mim.
Tirei a roupa molhada sem vestir outra para me aquecer. Sentei-me no sofá e esperei o corpo compensar a perda de calor sem nenhuma ajuda. Minha pele estava gelada, úmida, pegajosa, como um réptil asqueroso. Em um milésimo de segundo, sem muito aviso, eu simplesmente soube. Saber, verbo intransitivo. Precisamos da ilusão. Existir no interior da água nos massacraria. Decifrei o enigma, ninguém o decifrou mais profundamente do que eu.
Arquivado em júlia arantes
se eu vivesse na china teria filhos chineses. o despertador toca as oito. só para que eu feche as cortinas. acordo meio dia. ontem foi legal. faço hora na cama. meu cachorro vem. seu cheiro. recolho uma garrafa de água do chão do quarto. umas meias. meu xixi não está mais verde. chove muito. no prato uma colher de arroz, outra de feijão e batatas meio murchas. não esquentei a comida direito. fio dental é bom, no final das contas. meu cabelo está sujo. o espelho também. escolho o maior guarda chuva. aceno para uma vizinha, desconhecidos na academia. uma televisão enorme passa noticias sem som. dizem que esse âncora namora aquele outro que apresentou no limite. não farei esse exercício. acho que combinei de encontrar alguém hoje. não tenho dinheiro. também não vou fazer esse. meu cachorro sobe correndo as escadas. cheira todas as árvores. é preciso parar de fumar maconha. não é preciso sentir vontade de fumar e não fumar. é preciso não sentir vontade de fumar. reinaldo entenderia. levo o baseado até minha boca uma vez. em seguida outra, depois outra, e mais uma. essa rua é bonita, tranquila. talvez aquele cara esteja me chamando. deste lado da cidade deve dar para ver os fogos. me falta memória afetiva. meu cachorro se cansa. precisamos beber água. ontem foi engraçado. aquele cara queria dar uma? a chave demora a abrir o portão. acabou a luz. tem muita roupa para passar. faz frio em são paulo? vai demorar a escurecer. leio. seria, assim, um dado estilo um subsistema de uma linguagem, derivável daquela outra e. como um pão com ovo. ele me responderia muito bem, sem dúvida, dizendo que sapatos demasiado apertados nos fariam inventar danças completamente novas. o pedaço de panettone que sobrou do natal. o navio ardente avançava como que impiedosamente encarregado de um ato de vingança. fumo um hollywood. errar com o pensamento posto no que há de vir ou pode vir, perguntar-se sem muita concretude nem interesse pelo que será de nós amanhã mesmo ou dentro de cinco anos. dobro o canto da página, acendo outro cigarro. agora não há dúvida de que vamos para o mesmo lugar, queiramos ou não esta noite, ou talvez tenha sido ontem à noite que eu não quis. onde guardei as velas? mijo assentado. o chuveiro está gelado. lavo o cabelo quase sem me molhar. recebo uma mensagem. respondo, sim, eu também, e tanto. é só o que digo por todo o dia. a mensagem volta. não tenho créditos. vai chover de novo. levo meu cachorro para a rua. uma criança sorri para ele. eu sorrio para ela. uma ponta em meu bolso. acendo uma vez, e outra, e outra. deveria ter calçado um tênis. é melhor não encontrar ninguém assim. a luz voltou. consulto mogwai. divido a cabeça de um cavalo em formas geométricas mais simples. dois ovais e triângulos, um trapézio. aprendo a ver. risco sombras. o papel já sujo. os formatos possíveis da miolo pão. o pequeno caderno só agora útil. esse devendra banhart canta muito bem em espanhol. preciso chupar um pau. toco uma pensando no cara que tentou falar comigo. imagino outros. nunca treparei com nenhum. gozo em minha barriga. na cama de casal agora só minha. meu colchão antigo ainda encostado na parede a minha frente. abro a janela. o maço quase no fim. gosto da fumaça que saí de minha boca em noites frias. sinto vontade de cagar. maldigo meu intestino. desejo um cu que se limpe sozinho. lavo as mãos. vejo meu cabelo limpo. não gosto. preciso responder e-mails. talvez amanhã. o belchior gritando que não morre ano que vem. penso no que poderia ter sido e não foi. ontem ela dizendo que o amor é o fim de si mesmo. bêbada e tão certa. eu mais errado que tonto. assisto ao caos interno de um velho servidor público japonês. esqueceram de lhe dizer que viver é isso mesmo. razoavelmente agradável. sinto algo. não é tristeza. tento dormir. é cedo. eu meditaria, se soubesse. assento em minha mesa. brinco com uma caneta. eis-me de novo a fingir que escrevo. amanhã é o último dia do ano. depois começa outro. me disseram que tudo acaba nele. mas acho que não.
Arquivado em lucas schiavo
Rage, rage against the dying of the light
Dylan Thomas
Não entendeu o que havia de diferente apesar de ter olhado aquela fotografia durante quarenta minutos. Já haviam se passado dois meses desde que fizera vinte e seis anos, gostava de se fotografar enquanto dançava; “Ajuda a fixar os movimentos” – dizia. Nesse dia eu tinha saído, era final de ano e estava dirigindo a peça de formatura; Montávamos uma adaptação da Gata, de Tennessee Williams, e Brick me fazia beber, nunca fui muito de uísque sem gelo. Chegando em casa tarde da noite, cambaleava subindo os dois lances de escada que separam a porta de entrada e a cama, às vezes tropeçava em Augusto, o gato, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance de escadas, era um bom lugar para se proteger do vento do apartamento que compramos logo que vim de BH, escolhemos pelas janelas – dois janelões que, como combinamos, ficariam sempre abertos; o prédio estrategicamente construído não permitia que uma gota sequer entrasse quando chovia, fecharíamos nos dias que fossem “frios de matar” – dizia me fazendo sorrir com o acento italianado herdado de sua avó com quem morara a vida toda na zona norte da cidade – e o vento fresco que soprava o dia todo, meu pai havia me deixado uma pequena herança que usamos de entrada no apartamento que era do tamanho certo para nós, um quarto, uma cozinha, um banheiro e uma sala espaçosa – quase sem móveis; uma estante e um espelho – onde trabalhávamos e ele dançava. Estava mais magro, viu na fotografia, olhou-a por quarenta minutos mas não conseguiu entender por que estava tão diferente, estava muito magro, mal nos víamos, eu chegava exausto em casa, bêbado de uísque, cambaleava escada acima, mal nos olhávamos. Ele dançava quando eu saía, despia-se e dançava, gostava de dançar no escuro, nu, acendia algumas velas, dançava escondido, não queria que eu brigasse, estava muito magro, nos últimos meses perdeu quinze quilos dos dez que ganhara no ano que ficou sem dançar, sempre fora magro, mas tinha os músculos de bailarino, superfície angulosa, a panturrilha, as coxas, carnosas, rígidas, abdome e peito, lindos; era lindo,vistoso, seus cabelos, um mustangue; seus pés, tortos, gastos. Ganhou gordura naquele ano que ficou sem dançar, depois daquelas manchas, agora está magro demais, fraco, por isso dança escondido. Não percebeu o que estava diferente aquele dia em que, suado, fotografou-se, nu, também não o vi, mal nos olhávamos nesses dias de fim de ano. A peça estava ficando boa, os alunos fizeram uma pesquisa maravilhosa e o dramaturgo era um elegante rapaz do curso de letras, amigo de algum dos meninos. Já não saía mais de casa, estava fraco, não podia mais. Se dar ao luxo, de, pegar, alguma coisa. Metrô. Essas coisas. Saímos à noite algumas vezes, quando a luz já não lhe fazia bem aos olhos, depois das manchas, passava os dias de cortinas fechadas e dançava escondido, na sala do apartamento que compramos com dinheiro de herança , do meu pai, e de sua avó, agora já não saíamos mais, fim de ano, ele dançava escondido. Eu saberia que ele dançava, se o tocasse à noite, sentiria o suor seco, os pés pretos da sala empoeirada, morávamos no Centro, a poeira e a fuligem cobriam a sala onde ele dançava nu, já não tomava banho todos os dias, a água lhe doía. Eu Não via mais a poeira, nem Augusto, chegava em casa cansado e bêbado de uísque, o de Brick, bebíamos todos inclusive o dramaturgo, Artur, de escrita elegante. A casa estava muito escura, não conseguiria enxergar se quisesse, às vezes cambaleava e tropeçava em Augusto, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance para se proteger do vento. Quando nos mudamos para este apartamento de janelas e vento, combinamos viver sob luz de velas, agora elas já haviam acabado, iluminaram as tardes de dança escondida, não me lembrava de comprar novas, era fim de ano e ele já não saía na rua, estava muito fraco e dançava escondido, no escuro sem velas. As janelas estão sempre fechadas, venta muito, o dia todo, o frio lhe dói, está muito fraco, Augusto no lugar onde tropecei algumas vezes, agora sem vento, janelas fechadas enquanto dança, no escuro; não entendeu o que estava acontecendo naquela fotografia depois de olhá-la por 40 minutos, eu poderia ter lhe contado, mas não vi nada. Era fim de ano e montávamos a Gata, do Tennessee.
Arquivado em guilherme franco
Proposta para mês de dezembro: O incomunicável
Em algum momento da nossa breve História, foi preciso sair do que é nosso, do próprio corpo, das coisas que se constata com olhos e os outros sentidos. Fosse para articular o esquema de caça daquela noite ou comentar que o céu estava mais azul do que há algumas semanas, fez-se necessário a criação de uma ferramenta para ir ao Outro: a linguagem.
Não é difícil perceber que rodeia em toda a Natureza um halo de inexpressividade. Por exemplo, nas feições embotadas de um sapo quando é devorado por uma cobra ou a de um cervo que, ao beber água, é surpreendido por uma onça e aceita o seu fim sem muito alarde. Nada ali precisa ser comunicado, as situações estão dadas. Somente a nós, humanos, cabe combinar uma série de gestos e expressões visuais ou sonoras (a linguagem) na tentativa de comunicar um dado momento – ou, neste momento, a dor.
Mas vamos ao seguinte exemplo: Supondo que uma pessoa, independente da causa ou modo, tivesse a sua mão ferida. Um ferimento leve, com o qual ela não se deixou morrer, mas também não tentou conviver e guardar pra si essa dor. Esta pessoa se utiliza da linguagem e elenca uma série de outras ferramentas e símbolos (movimentos, gestos, gritos, lágrimas), na busca por convencer os outros a se interessarem por aquele acontecido. É aqui, neste momento, onde reside algo que assombra e marca com ferro a solidão da nossa existência: o fato que, por mais que essa pessoa se empenhe e se utilize dos mais requintados elementos para descrever o tal acidente sofrido com a mão, ninguém nunca chegara perto de sentir o que essa pessoa sentiu. De certa forma, existe um grau de incomunicabilidade entre nós que nunca será superado.
A proposta do mês de dezembro é nos debruçarmos sobre “o incomunicável”. Seja por versos, prosas ou imagens, tentar comunicar algo sobre o incomunicável em nós.
Arquivado em julian campos













