Arquivo do mês: maio 2011

sem título, 2011

 

Peço desculpa por fugir do direcionamento do tema morte. Mas quando foi dado o tema, esse era o único trabalho que poderia realizar.  Quando aconteceu o falecimento da minha avó, eu estava distante, então essa foi uma maneira que encontrei de realizar um projeto e ainda saber como foram os acontecimentos, já que nunca tive coragem de tocar no assunto.

Agradeço minha mãe e minhas irmãs por dividirem seus sentimentos.

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Arquivado em rodrigo ladeira

os primeiros cinco minutos

 

a última vez que nos vimos fora naquela, também última, despedida como tantas outras na rodoviária. nos poucos últimos segundos que foram nossos, lembro-me de você pedir novamente para abandonar o hábito do cigarro (ironicamente que me foi passado por você quando nos conhecemos), mas que mantivesse esse “ar de fumante”, que achava charmoso. entre aquele abraço e riso desconfortável, seu ônibus sumia na avenida andradas  e em pouco eu já era absorvido pelo clima da rotina diária e sem vida.

recebi a notícia de seu falecimento pela minha esposa, que deixara uma mensagem – assim como você o fazia – no telefone; me disse, pela primeira vez em palavras, que sabia quem você era, júlia. nunca escondi você tampouco, da mesma forma que ela também não me escondeu o ricardo, o joão, e outros que são anônimos, em chamadas de telefone, e notas fiscais de motéis ali do centro.

parece que foi ontem que te buscava ali pela primeira vez que vinha de curitiba – embora pela forma esporádica que os encontros foram se acontecendo, não sei ao certo se nesses quase nove anos chegamos a completar nove semanas juntos. aliás, nunca entendi sua mudança para curitiba, mas aceitei. igual aceitamos os nossos casamentos, os divórcios, a distância e o tempo, sempre ele. acho que ficamos velhos com nossos poucos vinte e sete; rimos dos casais que casavam cedo, das moças que viravam moças de casa, dos rapazes que eram rapazes de escritório. mas em pouco tempo nos tornamos tudo isso, talvez para se encaixar em algum lugar, já que desde o início sabíamos que nossas fugas seriam tão sem saída como a casualidade dos dias mundanos. e assim foi.

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Arquivado em fábio lamounier

– Por que você não solta o cabelo? Ta tão bonito, o que você fez?

– Nada, só cortei as pontas há meses, então você não notaria a diferença.

– Parece mais escuro, não sei, mais natural.

– Ah, sim, já faz tempo que eu não pinto, acabou voltando sem que eu percebesse. Para de me olhar.

– Vai beber o quê?

– Tem suco de goiaba?

– Não sabia que você ainda gostava, isso é suco de bebê, não tem gosto de nada.

– Não é melhor que vinho, mas sempre gostei, prefiro mesmo que não tenha muito gosto.

– Você viu? Abri o seu vinho preferido, por que não toma?

– Tenho que amamentar

~

– Vi uma moça que me lembrou você outro dia. Saí pra dar uma volta na lagoa e tinha me esquecido de que era dia de procissão de tapetes, Corpus Christi, e que por isso a rua era só montanhas de serragem de todas as cores, tampinhas pintadas, rolos de papel crepom, grãos e outras coisas que só por terem cor acabam virando material nessa época. Quando voltava da caminhada resolvi passar na rua da igreja de novo, acho esses tapetes bonitos e é uma pena que alguém gaste a madrugada inteira fazendo uma coisa daquelas e varra tudo poucas horas depois. Passei por lá. Em toda a procissão consegui contar vinte e cinco bandeiras do Brasil, acredita? Na última, parei e fiquei rindo sozinho por um tempo. A moça de quem eu falei estava sentada do outro lado da calçada morrendo de rir, olhando pra mim. Me aproximei e perguntei se era dela. Disse que não, o dela era o cacho de uvas quatro tapetes à frente. Então perguntei “Você sabe o porquê disso? Bandeira do Brasil?” e ela respondeu “Acho que é só pra ocupar espaço. Poucas cores e o verde ocupa bastante espaço. Há alguns anos seria vergonhoso, tal qual jogar pétalas de flores por cima da serragem branca só pra cobrir o vazio. Pergunta pra moça ali que fez, ela, provavelmente, vai dizer que Deus é brasileiro”. Depois disso ela bebeu um gole do que havia na xícara que segurava e me deu um sorriso, juro que igual ao seu.

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Arquivado em tereza alves

(no subject)

De: Usuário usuário@dominio.com.qualquer

Para: Outro usuário outrousuário@dominio.com.qualqueroutro

Data: Ontem

Assunto: (sem assunto)

Postado por: domínio.com.qualquer

“Ya somos en la tumba las dos fechas
 del principio y el término, la caja,
 la obscena corrupción y la mortaja,
 los triunfos de la muerte y las endechas.

 No soy el insensato que se aferra
 al mágico sonido de su nombre;
 pienso con esperanza en aquel hombre”

                                (Jorge Luis Borges)

Suspeito agora o espanto com que receberia essa mensagem. Mais espanto ainda seria me imaginar aqui, a essa altura em que nada acontece, tentando acompanhar a velocidade com que tudo me deixa pra trás – havia um tempo em que eu parava para observar, mas hoje eu paro: parei quando a caneta ia pra frente e pra trás como uma espécie de psicografia de um eletro encefalograma: a precisão me escapa em reflexos de um outro que foi preenchendo insuspeitadamente os meus movimentos, os meus humores, os meus bons dias que mastiguei no fundo da língua frouxa que bate e volta no céu da boca enquanto ofendo vizinhos e espanto os zumbidos agudos de crianças que rasgam o que ainda insiste ouvir. Entenda, O., agora não quero ouvir mais nada pois não há som que chame aquele que estava aqui antes deste outro chegar. Se me pedem licença não pedem para esse que nestas linhas parece falar, educadamente ou não, eles se dirigem a alguém que teimou em aparecer no último ato – Ato: deixe-me dizer do que não acontece ao fim dele. Já devo ter mencionado algo algum dia das coisas que não acontecem, de ausências, de insolitudes, do movimento que não se realiza, do corpo no fundo de uma cama, de um rosto no fim da memória: Era o meu que outrora você havia reconhecido como quem entra numa casa vazia e faz erguer a poeira de peles e toques de corpos que já se perceberam e com força violentaram o encontro.

E hoje eu não te encontro mais.

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Arquivado em thais monteiro

poderia

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Arquivado em kiki kiyoto

efêmero

“carnival dogs consume the line
can’t see your face in my mind”
The Doors

“e quantas vezes juntas em uma cama?”, questionou.  o quadro daquelas tardes esvanecia-se. os quentes corpos nus, fatigados, ofegantes após o gozo,  tornaram-se desfocados. genéricos. em sua mente, não conseguia formar uma representação. “os seios, que tanto toquei. não há imagem.”

não havia imagem, apenas sensações. o que restava era o conforto do que um dia fora, a plena convicção de que vivera e amara. as safistas fugas de duas vidas determinadas pela repressão; o intervalo do fastio, do tédio, do nojo. os decisivos resgates, beijos e abraços e olhares sorridentes de subversiva complacência: não havia imagem, mas os sentimentos. um refúgio, um calor.

descansou as flores de cerejeira na lápide. soube então que haviam encontrado as mentiras certas para o epitáfio, as mentiras que classificaram a vida de L. filha amada, esposa dedicada. as caracterizações que confiscaram possibilidades, censuraram desejos. “e aquele insípido marido que lamentou tanto, sem saber que, para você, ele estava morto há muito.”

fim abrupto. o adeus involuntário é mais difícil de ser consentido. e a dor. “em segredo, porque segregado.”

em memória de Daiane Hermann.

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Arquivado em camila rodrigues

destruição/reconstrução

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Arquivado em julian campos