Preparação

E eu vislumbro o teu corpo ao longe, com medo da aproximação. Inevitável será aproximar-me, sentir o cheiro podre da tua pele, perceber que já está débil e não reconhece mais o meu rosto. Ver a tua expressão nítida de dor e querer morrer não junto, mas separado disso. Tudo aqui lembra morte. O cheiro de hospital me aniquila, vai me cercando e ruindo com o resto de positividade que eu tinha antes de adentrar o corredor branco. Não posso Julio, não posso aguentar. Não consigo. Mas eu entro, me aproximo, toco o teu braço de leve, com medo e asco; com medo de que essa tua morte me invada também, e eu fique petrificada para sempre. Dura. Seca. Estúpida, amorfa, imóvel, abobada. Você não quer saber do meu rosto ou da temperatura da minha pele, teus olhos até tentam alcançar os meus, mas o que existe é apenas dor; não há espaço para vida. A dor ocupou o corpo inteiro. Você aponta para a bexiga, o fígado, o rim, eu não sei bem. O lençol tampa um pouco as partes [muito pouco]. Eu não ouso olhar. Eu solto palavras no ar higienizado, sabendo que você não escuta. Eu falo baixinho. Eu não sei o que dizer. Não posso dizer “é isso, você está morrendo, e nem me reconhece mais, acabou, essa doença acabou com tudo”. Eu apenas sussurro imbecilidades e obviedades do tipo “como você está” e “calma, vai ficar tudo bem”. Não ficou tudo bem. Não está tudo bem. Você se balançava em meio aos tubos, amarrado e angustiado. Eu, eu não podia fazer absolutamente nada. Não tinha a coragem de passar a mão na tua cabeça, fazer um cafuné. Sim, minha alma jovem, tosca e tacanha não reconhece a força desses carinhos banais. Eu continuei ali, parada durante breves minutos, e me afastei. Retornei no dia seguinte para observá-lo já morto, quer dizer, não você, você não estava mais ali, mas a tua carcaça, a carne morta, o que ficou. Sangue saindo pelos ouvidos. Boca aberta, os dentes à mostra. Eliana tentou fechar a boca, a tua, mas não havia jeito.  A enfermeira tentara em vão. Estava cansada do hospital e da tua morte, sabendo que ainda iria enfrentar outra despedida, com flores e abraços esquisitos.

Primeiro e último ato

E eu vislumbro o meu corpo ao longe, com medo da aproximação. Inevitável será aproximar-me, olhar para a minha pele e lembrar do cheiro podre da tua, perceber que me torno débil e que mal reconheço o meu rosto. Ver a minha expressão de dor e desamparo e ter desejado morrer junto a você, naquela cama de enfermos. O espelho agora me lembra morte, e o cheiro de hospital retorna com força, me cerca e rui com a pouca positividade existente nesta manhã. As paredes brancas me cercam, está tudo muito limpo, asséptico, neste quarto. Não aguento. Será que consigo? Toco o meu corpo lentamente, o único seio que restou da doença que também te levou me lembra um mamão podre e fedorento, e eu me pego querendo a morte, ela aqui, sorrindo pra mim. Ela, a morte, está me invadindo Julio, e eu te inventei de novo para aguentar mais essa. Dura. Seca. Estúpida. Me tornei tudo isso. Ainda bem que você não viveu para observar o meu rosto ou sentir o frio deste corpo, dos pés ressecados à cabeça confusa, lenta. A dor também me invadiu inteira Julio. Não tenho mais partes bonitas para apontar ou tocar. Não aceito ser essa velha doente e feia. Não há lençol aqui. Estou nua. Solto palavras no silêncio dessas paredes brancas, abobada, você me escuta? Eu grito dessa vez. Sei muito bem o que dizer. “Julio, eu fui morrendo aos poucos depois da tua ausência definitiva, eu fui saindo de mim, eu fui matando qualquer vontade de ser ou de estar”. Não ficou tudo bem. Angustiada, presa a este corpo que não reconheço. Reconheço e enlouqueço. Não posso fazer nada. Aliás, ainda posso. Será um último ato. Tenho coragem. Toco mais uma vez o corpo, aperto com força o seio esquerdo, já anestesiado, não sinto dor. Já não sou mais jovem mas continuo não reconhecendo a força daqueles carinhos banais, Julio. Continuo aqui, parada, durante horas. Me aproximo mais. Sinto o gelado do vidro que me encara. É bom. Não quero ter amanhã, dia seguinte. Não olharei mais para este espelho depois desse hoje revelador do óbvio que eu não via. O meu sangue vai sair primeiro por qual buraco, caso eu me lance desse décimo quinto andar, hein Julio? Quantos ossos conseguirei quebrar, de uma vez? Alguém tentará fechar os meus olhos, a minha boca, me deixar ereta ou me cobrir com um lençol? Sem enfermeiras. Sem Eliana. Apenas pedestres assustados com a minha carne detonada no chão. Eu estava cansada dessa vida sem teu corpo, Julio. Essa foi a minha despedida final, real, sem aquelas palavras medrosas e desnecessárias que você não ouviu. Essa é a minha despedida sem voz e sem flores e sem tato, com sangue e um pouco de asfalto.

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5 Comentários

Arquivado em luisa soler

5 Respostas para “

  1. lucas schiavo

    “eliana tentou fechar a boca, a tua, mas não havia jeito” gostei muito disso. é meio blasfemo (já que a morte é uma espécie de sagrado, e certas coisas não devem ser ditas sobre ela) e até engraçado (eu pelo menos dei risada). gostei também de ser um texto estruturado em duas mortes, dá uma dimensão maior da perda dela

  2. você escreve muito, luisa. muito bem.

    continue, continue, continue. quero te ler pra todo o sempre.

    amei esse.

    um beijo.

  3. Thais Monteiro

    “Estava cansada do hospital e da tua morte, sabendo que ainda iria enfrentar outra despedida, com flores e abraços esquisitos.”

    PQP, luisa. “Estava cansada (…) da tua morte.” jackpot!!!!

  4. luisasoler

    interessante vc ter dado risada nesta parte lucas, rs, mas nao foi essa a intenção. rs..

  5. “Ver a tua expressão nítida de dor e querer morrer não junto, mas separado disso”
    Fantástico.
    Gostei, em especial da Preparação. 🙂

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