Arquivo do mês: junho 2011

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Arquivado em ana paula garcia

Liberdade aos 13

Almeida Torres.

Sem semáforo, sem aquela miserável listra no chão. Se qualquer dia eu for atropelada, minha mãe pode culpar a prefeitura. E esse ponto de ônibus? Esse pau. Esse pau colorido, enfiado na calçada. Eles chamam isso de ponto de ônibus. São Paulo não fez mais aniversário? Porque esses desenhos comemorativos nos ônibus elétricos dos anos… dos anos que passaram há muito tempo, ah… já cansaram.

Pires da Mota.

Contrafluxo. É o nome dessa linha nesse horário, só pode ser. Esse é o único ônibus vazio na cidade às dezoito horas; somente o motorista e sua mistura de trabalho sedentário com cerveja, o cobrador e suas leituras francesas, eu. Acredito que o cobrador seja a única pessoa realmente feliz com seu trabalho… depois do bilhete único. Ele lê, e não por obrigação. Se não fosse o trânsito da via contrária e o bloqueio de cruzamentos, essa viagem duraria dez minutos.

Bueno de Andrade.

Venham para cá, cosplayers. Tragam suas cores para as outras ruas da Liberdade, andem duas quadras. Não vai fazer mal. É mais fácil ser descolado sem precisar lidar com os problemas da sua própria cidade, não é? Ou da sua sociedade, ou da sua cultura. Isso, fujam. Isso mesmo. O bom de usar fantasia é que ninguém espera qualquer senso de realidade de vocês.

Conselheiro Furtado.

Eles nunca entendem as meninas de treze anos. Eles nunca entendem a angústia, a raiva e o medo de ser uma menina de treze anos. Como é difícil ser atraída por meninos e não ter maturidade emocional para lidar com eles. Como é possível estar velha demais para brincar e nova demais para ter alguma opinião. Como é incompreensível a necessidade de vestir uma máscara… sem nem saber qual deveria ser a sua. Hoje serei a aluna nota dez ou aquela que fugiu de casa? Não tem outra opção? Ou eu não posso ser as duas? Pare de olhar pra mim.

Boa Vista.

Claustrofóbica.

Libero Badaró.

Eu nunca vou conseguir falar isso. Incrível que alguém realmente tenha se chamado assim. Imagine na escola e os amigos. O Venceslau e o Abelardo chamando o… naquela época não devia ser estranho, pensando bem.

Viaduto do Chá.

Quantas pessoas já se jogaram aqui? É um bonito lugar para morrer. Melhor do que a Galeria, acho. Para vidas sem emoção, nada mais esperado do que não atrapalhar o tráfego. Não fazer diferença, para variar.

O problema das ruas é a vida.

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Arquivado em camila rodrigues

Anda.

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Arquivado em julian campos

sem lugar

perdido durante algum tempo fiz essas fotografias em alguns cidades por onde passei.

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Arquivado em rodrigo ladeira

na rua que não é esta.

e então você notou que aquela rua em que ontem tombávamos tortos foi tomada da cor que nos denuncia sujos: corpos estranhos que empedra o fluxo dos transeuntes desta clareza tão nítida e tão sólida e tão certo é que fazem dela, esta rua, o meio e não o fim de suas procissões cotidianas e ainda somos ateus. esperemos, então, que a rua em plena força de contração nos aborte em abrigos subterrâneos caso não tenhamos força de nos incrustarmos nos seus cantos, como camuflagem mancha pixo margem e o cheiro fermentado grudando no passo tonto a que chegamos no primeiro indício que não pertencemos mais ao reduto do jornaleiro que nos olha desconfiado ao evitar a graxa nas fendas cutâneas de esquinas esquivas, da epiderme sedenta do nosso gole, da nossa fuga, de um outro lugar para longe desse mesmo em que pessoas chegam a algum lugar, se cumprimentam e continuam a nos pular: poça de lama: indício que há de ter chovido e que ninguém se molhou conosco.

penso aqui, meu caro, quantas ruas eu precisaria vencer até chegar para mais perto de um lugar qualquer, quantas vilas cravadas no meio de quilômetros e distâncias até que se reduziram a passos de quem certo conhece o caminho para as visitas das tardes e os berros da noite, quantos objetos esquecidos na tua cidade para me fazer voltar pelo mesmo caminho tão diferente: _ Bom dia, Sr. Roberto! Tenho certeza que se bater nesta porta um senhor de cara espremida abrirá o mau humor de quem é importunado por um estranho em lugar do seu reconhecimento tão amigo e eu imaginaria ter demorado trezentos e cinquenta anos pra voltar a este mesmo lugar.

talvez só tenhamos passado por três tons desse céu para que a máquina da cidade comece a articular seus ruídos monofônicos, para que sejamos esquecidos a cada conversa no hall de entrada dos edifícios a pleno vapor e neste instante as placas só conseguiriam indicar o quanto estamos perdidos de nosso pouso.

deslocaram uma pedra que se soltou de algum muro e passou a não integrar mais nada além de uma forma tão singular e desfuncional de sua própria ruína. O sol agora se põe sobre nossas cabeças enquanto, recolhidos, esperamos outra chance de enfrentar os  suores de quem saiu e não se lembra mais como voltar para o cheiro fresco dos jardins em que crescemos, dos panos do vestido limpo dela, o tilintar de copos e talheres nas reifeições em comunhão, risos no cômodo ao lado, domingos lentos e calmos e a certeza de que seremos felizes todos dias juntos, amém.

 e por mais longe que alcancemos, meu bem, é pra trás que olhamos e vemos que nos deixamos a cada passo sem qualquer vestígio. nos distraímos com as luzes e com a vontade de permanecer sempre até o nosso encontro na avenida que atravessei e te vi tão de longe voltar sozinho. continuei.

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Arquivado em thais monteiro

lá na sapucaí

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Arquivado em fábio lamounier

Das seis.

Nunca são 05:00h quando tem que ser.

 ~

– De onde é isso?

– De um poema do Augusto dos Anjos.

– Ah, nunca ouvi falar.

– Sério? Quê isso, vou trazer um livro pra você amanhã, você vem essa hora? O cara era foda, cê vai ver. Quero fazer um trabalho sobre ele de tanto que eu gosto.

– É… parece ser legal mesmo, depois cê me mostra.

– Beleza… ah, é! Ontem eu li sobre poetas modernistas e me lembrei de você quando apareceu um poema do Carlos Drummond, quer que eu recite?

– Quero, quero, espera só um minutinho, só preciso atender ao telefone.

~

– Nossa, esse sol tá forte hoje. Tsc, deixei minha plantinha sem molhar, ela vai sentir falta.

– Nada, ela agüenta até você voltar.

– É, tomara que não murche, tadinha. Cê gosta de planta?

– Não sei se sim ou não, não sei cuidar, acho muito complicado escolher cor de planta, não sei o que combinaria com o quê e em que lugar da casa, essas coisas.

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Arquivado em tereza alves