Cotidianamente inviável

O que eu menos vejo é movimento. O que eu menos sinto é movimento nessas ruas de tantos carros e pessoas e sapatos. Mendigos deitados, lixo no asfalto e meu coração parado, estatelado. Caminho diariamente pelo centro e percebo a morte sem véu ou capa. Homens de rua, mulheres da rua, e a muralha entre mim e suas vidas de pisca-pisca, assaltos e assombros, indiferença e violência, falta e excesso, barulho, mudez, loucura, paralisia. Existe uma muralha entre mim e eles, e eu sigo repetindo que o problema não é meu. É desse asfalto. Tropeço distraído em pensamentos grudados num concreto de restos e histórias semiapagadas. Olho para o chão de calçadas irregulares e fragmentadas e pressinto vultos ao meu lado cheirando cola ou morrendo de frio. Eu não morro de frio, é de outra coisa que vou sumindo, diminuindo, enlouquecendo.

O cheiro dessas ruas e pessoas me transporta para um inferno particular, de onde não consigo escapar. Sei que amanhã vai ser aquela jornada filha da puta, os mesmos rostos mortos me olhando sem olhar, aquele ar comprimindo orgãos, a chuva incessante não fertilizando nada, os homens vestindo trapos em sua luta diária por sobrevivência, às vezes anestesiados pela dor, às vezes não. O mau cheiro me provoca ânsias e náuseas terríveis, o mau cheiro de São Paulo que não sei bem onde começa e onde termina, as substâncias invisíveis vão subindo, se misturando às blusas das passantes, ao meu rosto, a tudo. O cheiro. É uma mistura de quê? Como surgiu esse cheiro? Essas manchas escuras nas calçadas imundas, os mendigos cobertos por colchas maltrapilhas e fedorentas, como conseguem meu deus? E depois o sol vai secar esse molhado, que retornará com um odor ainda mais forte e violento. Invasivo. As bactérias felizes instalam-se em minha pele. O asco já é insuportável. Eu quero uma porta pra chutar, um rosto pra socar, uma alma pra expulsar. Eu quero Ana novamente. Sorrindo e perfumada, com uma saia rendada. Ana. O cheiro de urina é o que predomina nessa parte do trajeto. Porcos. Ninguém se incomoda. Qual é o barato de ser ser humano? Me pergunto ao ouvir “Desculpe”, de Arnaldo Baptista. E quase no fim do trajeto, um homem de rua me rouba o ipod comprado nos States; agora só me resta ouvir o barulho dos carros, dos busões, das buzinas infernais pensando em Ana e em seu cabelo perfumado. Jasmim. Quero o cheiro de jasmim em todo o meu corpo agora.  Do asfalto e da falta de afeto, de tudo isso eu já me esqueci.

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4 Comentários

Arquivado em luisa soler

4 Respostas para “Cotidianamente inviável

  1. irretocável!

    gosto do jeito como você constrói o texto, essa fusão de imagens e cheiros e sensações. dessa visão do lado B da cidade, você passando por ele.

    tudo é muito denso e muito real e eu consigo andar com você pelo centro e ver junto com os seus olhos.

    gostei muito desse final doce, esse final que apaga um pouco o azedume de tudo o que foi dito e visto e pensado.

    mais um acerto seu. (para variar) parabéns.

    um beijo.

  2. Só os condenados conhecem verdadeiramente a prisão onde vivem, fruto – ou não – de seus crimes. Todos aqueles fora das muralharas da cidade desconhecem o que, verdadeiramente, se passa e, pior, não passa jamais.

  3. Erick,
    Bela Crônica .
    Reveladora do caos que assola a maior cidade de país, e a segunda ou terceira maior do mundo, se não estou enganada.
    Parabéns.
    Um abraço.

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