Das seis.

Nunca são 05:00h quando tem que ser.

 ~

– De onde é isso?

– De um poema do Augusto dos Anjos.

– Ah, nunca ouvi falar.

– Sério? Quê isso, vou trazer um livro pra você amanhã, você vem essa hora? O cara era foda, cê vai ver. Quero fazer um trabalho sobre ele de tanto que eu gosto.

– É… parece ser legal mesmo, depois cê me mostra.

– Beleza… ah, é! Ontem eu li sobre poetas modernistas e me lembrei de você quando apareceu um poema do Carlos Drummond, quer que eu recite?

– Quero, quero, espera só um minutinho, só preciso atender ao telefone.

~

– Nossa, esse sol tá forte hoje. Tsc, deixei minha plantinha sem molhar, ela vai sentir falta.

– Nada, ela agüenta até você voltar.

– É, tomara que não murche, tadinha. Cê gosta de planta?

– Não sei se sim ou não, não sei cuidar, acho muito complicado escolher cor de planta, não sei o que combinaria com o quê e em que lugar da casa, essas coisas.

– Mas não tem combinar com a casa, não são como móveis ou quadros, haha. Escolha uma, cuide dela e, desde que ela esteja bonita, pronto, combinou.

– Haha, vou comprar um dia, quem sabe.

– Faça isso, de qual você acha que gostaria? Já gostou de alguma? É um bom começo.

– Já gostei de uma árvore. Ela fica em Londres, ao lado de uma livraria pequena que fica na Blenheim Crescent. Ela é meio grande e é igual a todas as outras da rua, só que um pouco menor. Gosto dela por causa dessa livraria, que é muito bonita. Tem um café em frente, também, com mesinhas lindas, queria comprar igual também.

– Você morou em Londres? Eu queria ir lá um dia, mas tenho outros lugares pra ir antes.

– O engraçado é que não, eu nunca fui a Londres.

– Mas você sabe alguns detalhes, coisa de quem já foi.

– O que eu faço é pedir aos que foram para me contarem, caso eu não consiga ir um dia.

– É meio triste isso, não?

– Não, minha memória se habituou tanto a todas essas histórias que criou imagens nítidas, de tal forma que elas já são minhas. E são minhas. Se eu me lembro, são minhas.

~

– Deixa aí

– Quê isso?

– Backstreet boys, mano, parece, não parece, não?

– Backstreet boys? Mas tá no Flashback!

– Já virou flashback, já, mano, já virou.

– Haha, é, mas eu vou trocar, peraí… aqui, nó, essa é boa, vou deixar “baby you are fiiirework”.

– Essa música fala sobre igualdade, mano, igualdade!

– Essa música é boa, Firework.

~

– Pai, me passa a manteiga que ta aí?

– Aqui. Só?

– Só, obrigada.

– Sua tia veio aqui ontem à noite saber se você iria amanhã à aula, falei que não pra não morrer de vergonha. Não entendo porque você não pega carona com ela, parece que gosta de gastar com passagem, quero ver quando estiver beirando os dez reais, o que você vai fazer.

– Minha tia fala demais, pai.

– E daí? Vai escutando música, lendo, qualquer coisa.

– Eu faço isso tudo no ônibus. E, além do mais, ela vai muito cedo, tá frio ainda essa hora e a faculdade vazia.

– Teimosa, ônibus essa hora é sempre cheio, você sempre vai em pé. Você não gosta de andar que eu sei, não liga de ir em pé?

– Não, gosto de andar de ônibus.

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