Arquivo do mês: julho 2011

era algo em torno das cinco da tarde,

horário em que a luz solar perpassava suavemente a persiana e marcava a parede com listras espessas e alaranjadas. observavam o fim da tarde com calma, na verdade observavam o dia como um todo assim. a distância de uma semana para a já marcada despedida não parecia contundente, não como foi, de fato, na madrugada em que o táxi dele atravessara a avenida brasil, e o outro seguia a direção oposta.

novamente, a luz solar perpassava a persiana e marcava não só a parede, mas o rosto de rafael, que observava, calmamente, o fim de tarde. mas sem ele. um leve desespero o tomou conta quando ouviu o repetido som do telefone, o mesmo que não conteria o convite de semana atrás para observar o entardecer. nem naquele dia, nem no próximo. como resolução imediata, optou por abandonar a casa – e o fim de tarde – por um passeio na praça. aquela mesma em que, em outro entardecer, sentavam no meio fio e observavam o andar das pessoas. rafael sentou-se num banco desocupado e ouvia caetano – o mesmo que ouviu quando o carro enguiçou num elevado, e ficaram por horas a ouvir não só caetano, mas uma sequência de músicas que se repetiu entre o tempo que estavam juntos e sós no escuro. retornou para a casa assim que o último filete de luz se perdia entre os prédios baixos que contornam a praça. já era algo em torno das cinco da tarde, sentia fome. de um prato, que comeram em um dos dias de inverno, mas dificilmente lembraria o nome do prato como se lembra da sequência repetida de músicas que tocou enquanto o carro se encontrava imóvel.

já em casa, a parede perdera a textura da luz da tarde, e não se viam mais os rastros dela junto à poeira. era tempo de limpar o quarto, guardar as notas fiscais – do vinho, dos filmes – e observar a cidade escurecendo enquanto comia sua pizza de biscoito. rafael gostava de existir em uma rotina, dentro de repetições habituais. por exemplo, observar a temperatura dos ponteiros da avenida brasil sempre que passava por lá – o que era bem frequente – e preparar sua pizza de biscoito. passara por uma mudança repentina de rotina quando se encontrou, repentino e por acaso, com joão na saída de um bar. digo, o habitual trabalho ao computador aos fins de tarde fora trocado pela observação silenciosa, vez acompanhado ora não, da janela do seu quarto, enquanto esperava ele buscá-lo de carro. desde o início, porém, ambos sabiam que essa rotina se findaria dentro de pouca semanas, como indicava a passagem de avião de joão – não a de ida, mas a de volta.

o primeiro abraço foi como o último, se estendia para um próximo; no dia seguinte, talvez. Naquela madrugada em que rafael retornou do táxi – que seguiu a direção oposta do táxi de joão -, sentou-se na cama, na extremidade em que ela recostava num beco, e observava a mesma parede paralela à janela. por horas. até que ela ganhasse uma textura, não aquela da tarde, mas da claridade das primeiras luzes da manhã. opaca, leve, e branca. pensava no fuso horário, em temperaturas. se encontravam agora em lugares e tempos opostos.

e assim, por outras vezes, rafael observava calmamente a luz da manhã. sabia que joão observava, ao mesmo tempo, e com a mesma calma, o fim da tarde em sua nova janela.

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Arquivado em fábio lamounier

Dentro dos Olhos Dela

Luz: Comprimentos de ondas perceptíveis ao olho humano. Sete gamas de intensidade que posta à pupila que há pouco se abriu repentinamente, como quem acorda de um sonho ruim, se misturam na definição clara que os olhos confundem como branca: a parede cuja as dobras rápidas de radiação cede à escuridão do vácuo a 299 792 458 metros por segundo: este em que fita a faixa cortando o teto: branco da primeira luz de um dia: que se faz dentro do espaço em que até o momento não se define em imagens, mas em sombras as quais não preenchem o mínimo reconhecimento.

A cada espaço em que a sombra cede à luz, primeiro toma-se a dimensão do corpo dentro dos limites em que os raios incidem no espaço deste primeiro exame: um teto e arestas que descem até a dobra do chão que sustenta todas as coisas que não se revelaram em sua totalidade. Levanta a mão à altura dos olhos e analisa minuciosamente a silhueta dos cinco dedos: cada articulação e protuberâncias nas costas das mãos e gira o pulso para olhar agora o abismo da palma vazia: tateia o braço para desconfiar das continuidades do seu corpo: mão presa ao pulso preso ao braço preso ao ombro preso à cama presa ao outro volume do outro lado do corpo: o outro braço o outro tórax o outro queixo a outra boca presa no sono distante daquela manhã de um dia que não soube como iria continuar incidindo sobre esta arquitetura que se sustenta abaixo dos olhos que procuram as coisas e acompanham o contorno das orelhas: toda carne é comum até que se mova: o outro imóvel como a luz que agora preenche o quarto.

 Fecha os olhos contra a nesga de claridade que percorre as fibras das cortinas: a poeira que dança dentro das pálpebras em seu infinito róseo de contornos azulados.

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Arquivado em thais monteiro

Pores

Em uma casa cercada por três prédios qualquer nesga de luz é motivo de alegria. A curta jornada em busca do sol começa no quarto ao lado do meu, pela manhã e termina aqui, ao meio dia, poucas horas em que todos se espremem nos cantos das camas.

O plano sempre é viver a manhã toda com o que está a esse alcance: água, controle remoto, um pacote de biscoito quase no fim, nada muito além disso. Tudo ao redor tem que se ajeitar à quase vontade única de nada das manhãs. Tudo tem que se adaptar à extensão das pernas e braços, até, no máximo, às extremidades dos dedos.

Dia desses a luz acabou. “Ok, eu ainda posso ficar deitada”. Deixei o edredom de lado e fui me adaptando lentamente às posições do sol, minhocando pela cama feito uma criança de dois anos se enroscando na mãe quando está com fome. Há tempo de perceber que sou uma péssima dona de casa: uma penugem de poeira se alastra por todos os móveis. Penso em levantar e pegar o espanador, mas o sol acaba de abaixar um pouco e nunca me pareceu tão agradável. Tiro as meias e olho a brancura desses pés que nunca veem o sol, pés que vivem dentro de tênis e serão escravos eternos das sapatilhas devido à falta de jeito de quem os tem. Me lembrei da menina que disse uma vez, ao olhar durante muito tempo para os meus pés, que eu os tinha e às unhas das mãos de mais bonito e eu respondi “sério que não são os meus óculos?”. Olhei em volta do quarto procurando alguma coisa que me lembrasse mais dela e achei uma pinha que ela apanhou em uma das poucas vezes em que aceitei caminhar na lagoa. Sinto saudades do tempo em que ela olhava para os meus pés e falava sobre eles e sobre como eu não gosto de andar, que por isso eles eram bonitos.  Continuar lendo

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Arquivado em tereza alves

o vazio que fica

 

 

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Arquivado em kiki kiyoto

Resquício

Os lugares desertos ditos perigosos são sempre os mais agradáveis, pois ninguém arriscar frequentar. Parques urbanos tornaram-se seus destinos preferidos.

As fugas consistiam, essencialmente, em subverter. Quando há fraqueza profunda, o ato parte da necessidade de reagir da maneira que se mostra possível. O intrínseco, portanto, da rotina noturna de S., era transtornar aquilo que se tornou tão conhecido.

A tipuana – a sua tipuana, somente sua – estava desflorando, de modo que o campo abaixo encontrava-se plenamente amarelo. Sentou-se, apoiando as costas ao tronco; sujou-se ao encostar nas pétalas moídas recentemente. Não era exatamente confortável ou agradável, não entendia por completo o porquê de haver escolhido aquela árvore, dentre tantas, sua favorita.

A questão foi tratada em algumas das noites que viveu lá, as teorias mais lógicas eram duas: tratava-se da única árvore deslocada de todas as outras – e toda incongruência era bem-vinda; suportava todo o peso e beleza em um tronco desproporcional. Contudo, a razão era irrelevante.

S. fugiu, novamente. Encontrava-se onde não podia ser encontrada e no único local que gostava de estar.

A noite estava particularmente quente, não demorou até que adormecesse. Mas o sono leve foi interrompido pela alvorada. A luz fraca que escoava dentre os galhos era como a água que goteja após a chuva: insinuação e resquício. A presença sutil da luz trouxe, da mesma forma, as sensações. A vulnerabilidade, o abatimento, todos os velhos conhecidos de seu quarto, da luz. Sentiu-se novamente acamada, sendo cuidada insistentemente, observada o tempo todo.

S. fugiu e, como em todas as manhãs, a luz amarela veio em sua busca. A luz, que lhe causara tantos estranhamentos no seu então espaço privado… que reduzira o quarto em um espaço tão conhecido e, portanto, pequeno… era a mesma que o transformara em algo descomunal, pois daquela cama, daquele canto, tudo era impossível.

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Arquivado em camila rodrigues

Figura ao meio-dia

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Arquivado em julian campos

O amarelo e o negro

K. até tentou se levantar, sair da inércia, sentir o chão gelado e entender por que não poderia ser como o resto do mundo do outro lado da janela, caminhando sem maiores preocupações, alguns com flores, outros com frutas, tantos rumo a algum encontro furtivo ou em busca de um lazer qualquer, tudo para aproveitar aquele dia de sol, após tanta chuva, frio e recolhimento. K. sentia um A maiúsculo de angústia obstruindo a sua garganta, fechava os olhos e após exatos três minutos, contados mentalmente, enxergava o mesmo rumor, escutava o barulhinho bom das ruas, das pessoas, a alegria de um dia solar. Por que não sentia aquela calma misturada a euforia? Desejava ardentemente que o telefone não tocasse, pensou em tirá-lo do gancho, mas agradava-lhe a ideia de correr esse risco, algum amigo ansioso por companhia sob o sol de setembro. Dez, vinte, quarenta minutos e nada de o telefone tocar. Os mesmos ruídos e o mesmo sol colorindo as ruas. K. sentia a vivacidade lá fora, mas não conseguia se juntar àquilo tudo, ligar para alguém, compartilhar da sua tristeza matinal. Não era nem tristeza o que existia, era um nada crescendo pelo corpo e pelas paredes desbotadas do quarto; e aquele pedaço de sol em sua cama não aquecia, apenas tirava-lhe o sossego. Uma falta de sossego que não movimentava os seus membros, era como se o sol os tivesse congelado, mas por dentro havia uma taquicardia feroz, conseguia sentir o ritmo descompassado do coração, uma dança frenética e cortante. Se ao menos o telefone tocasse, pensava, aquilo tudo terminaria, ela tomaria um susto, inclinaria a cabeça, levantaria as mãos que pousavam pesadas sobre os joelhos suados. Mais vinte minutos e decidiu inspirar e expirar lentamente, técnica ensinada por seu amigo H. para quando os ataques surgissem em momentos como aquele. Inspirou, expirou, nada mudou. Tentou assobiar alguma coisa, mas não sabia assobiar. Forçou na memória alguma canção de ninar que R. costumava cantar, mas apenas lembrou contínuas surras de R. Comprimia os olhos, franzindo a testa, enxergando pontinhos amarelos em meio ao escuro, milhares  deles tentando preencher, em vão, o  céu abismal que enxergava de olhos cerrados. Tinha medo do infinito de qualquer céu. “‘É o sol”, pensava. O sol bem na sua cara estática e suada, criando linhas e pontos amarelos dentro dela. Sentia-se exatamente como aquela visão momentânea. Os pontinhos amarelos nunca conseguiam expulsar o escuro, vencer os pontos negros, obscuros. Não sentia o corpo vibrar, cansava-se só de pensar em algum movimento, acostumara-se àquela inércia, cômoda e corrosiva. K., parada, observando os transeuntes na rua, sabendo que o sol ri de seu estado, de sua palidez, de seu medo. K.,  pensando ainda no toque do telefone, toque que não vinha, nem do telefone nem de ninguém. (…)

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Arquivado em luisa soler