Natureza morta de coisas amarelas a respeito do sol de inverno

Não gosto do inverno. Todos vocês sabem disso. Todos vocês sabem que eu entendo a função existencial e cíclica do inverno e até mesmo chego a gostar do fato de as coisas funcionarem aqui em fases e mutações (felizmente não tão exacerbadas como acontece muito ao norte ou muito ao sul).  Os ciclos nos renovam. Mas o tempo de inverno para mim nunca acontece sem sofrimento. Minha maior pena corporal é, de fato, o frio, mais que o sono, a fome e a dor. Acontece como um lamento sem fim. Por medo, ando sempre agasalhada ou levando um casaco comigo para mais tarde, se ventar. O frio dói não só na pele, nos lábios, mas também mais dentro, nos ossos, e toma o corpo todo como uma grande epidemia de todos membros, tecidos, órgãos.

O frio é sempre o período do silêncio, do retiro: enfim: o céu azul com esse sol sem cor quase quente acontece com uma melancolia quieta e morta. Essa luz desse sol é quase inútil. Vejo Esquenta sem cor alguma, ou talvez exista no branco, no azul, no acinzentado, cores de escala gelada ou nula. Aqui, em Belo Horizonte (a cidade desta varanda) é comum ver meus semelhantes buscando nesgas de sol na parede, num gramado, sobre a calçada, no assento do ônibus, como aqueles bichos de sangue frio do deserto. A medida em que o sol muda sua direção, vamos nos adaptando às formas polígonas das janelas, até antes das cinco da tarde, quando o sol fica vermelho e ainda mais sem calor, desaparecendo aos poucos enquanto a noite engole nossas casas.

Este é um período de acúmulo e gasto. Cumpro, não sem luto, esse ritual. Acho que é a época do ano em que mais estudo, em que mais escrevo, em que mais produzo. São horas a fio de uma concentração perfeita que vai me esvaziando o peito daquilo cuja criação adiei durante tanto tempo. A nitidez do contorno do rosto das pessoas é mais forte, e por isso é mais fácil registrá-lo. As memórias parecem coisas reais devido à nossa nova habilidade de olhar para dentro. Temos o desejo de mexer nos arquivos de nossas avós. O número de casos de violência doméstica diminui. O número de acidentes de trânsito decai consideravelmente. Por mais que eu tente, não consigo descansar, na verdade, não estou cansada em absoluto. Não tenho vontade de me divertir. Todos ficamos doentes e alérgicos.


Há campanhas de doação de agasalhos, doação de alimentos, sopa para os miseráveis na rua, que em países de neve sempre morrem aos montes. Mas não é bem uma hora de doação, mas de conservação das coisas – afinal, estamos tão egoístas… Vamos juntando as coisinhas que nos aquecem, que nos alegram, e buscamos conforto nas cores quentes e alegres, que não parecem fazer muito sentido agora, mas trazem um estranho consolo. Usamos de novo aquele moletom manchado, que no verão nos parecia ridículo. Sentimos falta daquele cobertor amarelado de tempo que jogamos fora dezembro passado, ele nos seria essencial agora, com esta coriza, com este vento.

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3 Comentários

Arquivado em laura cohen

3 Respostas para “Natureza morta de coisas amarelas a respeito do sol de inverno

  1. A sua varanda deixou Belo Horizonte muito mais bonita, Laura.

  2. adorei essas coisinhas amarelas, essa sequencia de fotos; adorei a sua visão sobre o inverno e compartilho dela; sofro no frio; sou solar e gosto do dia que já começa quente, acolhedor, com um sol primoroso, de rachar. Eu gosto. Belo texto. Beijos

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