Celina naquela tarde

Não é que não quisesse, queria. Não é que carecesse de energia, pois é preciso energia para assistir evaporar o círculo de água que o copo havia deixado sobre o criado-mudo; é preciso energia para contar os tacos no chão por onde o sol se deslocou por, sei lá, duas horas, mentira, no máximo uma. Lembrou-se de algo sobre combustão e consumo de energia, o que, no instante seguinte, pareceu não fazer sentido algum. Celina naquela tarde. Celina pesando sobre os lençóis, como se nada fizesse. Não é que não fizesse, fazia. Quero dizer, ela queria ser Celina, queria e com energia queria, e ainda assim permanecia meio a um estranho catálogo de reações aleatórias ao qual chamariam de arbítrio. Quando desconfiou que havia se apaixonado pela primeira vez, Celina abriu os armários, separou duas blusas, as doou e depois desfez-se do pé remanescente de uma sandália perdida. Celina naquela tarde cansava a geografia plana da cama, pois é preciso energia para assentar a sola do pé, de ambos os pés, cada centímetro de cada sola sobre o colchão e sentir formarem-se depressões por entre as molas. Quando desconfiou que havia perdido sua mãe, Celina ligou para André, confundiu seu nome por duas vezes e, na terceira dose de whisky, convidou-o, André, isso, para passar a noite com ela. Ele decidiu esquecer o ciúme de outros nomes – quantos fossem –, decidiu esquecer que certamente não seria ele, decidiu, por fim, sorrir e voltaria a fazê-lo ao nascer do sol enquanto tentaria abraçá-la. Quando desconfiou que havia conseguido uma bolsa de doutorado na Alemanha, Celina correu à lista telefônica, tentou no Y, achou no I e começou aulas de ioga, com desempenho notável para iniciantes. Sempre aprendeu rápido, porque sempre teve energia, pois é preciso energia para ser Celina e carregar o nome sugerido pela avó, o nome sem apelidos fáceis. Quando desconfiou que André a pediria em casamento, Celina tentou doar sangue, descobriu que não pesava o bastante, saiu desnecessariamente apressada do hospital e comprou cruzadinhas na esquina seguinte. Celina naquela tarde amassava o lençol branco, cujos vincos, à moda de borras de chá, adivinhavam-lhe futuros os mais ordinários e, se isto não a entristeceu, não a consolou tampouco. Quando desconfiou da gravidez, rasgou duas páginas do guia de viagens, arrumou a mochila e a barraca, abraçou André, já já estaria de volta, e viu lugares lindos, veramente lindos, dos quais não tirou uma foto sequer. Celina naquela tarde admirava a mínima translação da terra pelo seu quarto, meridiano por meridiano, o calor justo ao brilho, meridiano por meridiano, o curso reto, meridiano por meridiano. Nunca duvidou de seus predicados: acertava quando dizia seu nome de solteira, quando solteira, e de casada, agora casada; acertava quando dizia seu CEP e o que havia conquistado até então – eram aqueles os fatos, exatamente aqueles. Quero dizer, ela era, tornara-se e permanecia Celina e, no entanto, gastava-se mal, se gastava. Não é que não quisesse, queria. Quando desconfiou que havia abortado, Celina sentiu vontade de fazer suspiros, bater claras em neve, dúzias. Bateu com força – no braço e com força. Assim que terminou, lavou as louças e pediu para que André as guardasse. Celina naquela tarde, antes de abrir os olhos, pensou como as siestas alongavam-se cada vez mais e, depois de abri-los, se espantou com o sol da manhã. Celina naquela tarde era Celina existindo em uma manhã na tarde de Celina. Sentou-se ainda lenta e, por um átimo de segundo, um átimo apenas, estranhou tudo que estava ao alcance dos olhos, inclusive o próprio corpo. Suspeitou que o sol crepusculava-se enquanto amanhecia. Abriu a janela verde, de um verde gasto, escolha do antigo inquilino. Perguntava-se pela origem do frio: quero dizer, se começaria nalgum lugar dentro de si, destacado do ambiente, ou se a temperatura ao redor, sentida na pele, faria o corpo tremer. Pousou a mão sobre a testa, não tinha febre. Talvez ainda houvesse suspiros para o café, melhor não, abandonou a ideia e bebeu um resto de água largado rente ao abajur. Ainda sobre a cama, abraçou os joelhos frouxamente, girou o pescoço endurecido e tornou a desconfiar que precisava fazer alguma coisa.

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6 Comentários

Arquivado em leonardo arruda

6 Respostas para “Celina naquela tarde

  1. Lindo texto…
    Me sinto um pouco como Celina… De vez em quando, atado em mim mesmo… Acho que é um sentimento bom de se sentir…

    O texto tem uma poesia do dia-a-dia invisível aos olhos frouxos…
    O sabor dos suspiros batidos com força, saber o CEP de cor, fazer cruzadinhas ordinárias compradas em bancas ordinárias… O tempo que é medido pelo sol correndo nos tacos do chão… fazia muito isso…

  2. laura cohen

    Léo, pare com isso. Cada vez que você escreve um texto ele é o melhor que você escreveu. Tá lindo demais. Parece aquelas peças de teatro de cenas curtas, em que o ator mal se move, mas uma voz fala. Estranho porque Celina é capaz de açoes tao pequenas, permanecendo imóvel. Vai escrever mais, menino. tá óptimo!

  3. d.

    Leo, MUITO bom o texto e a forma como você conseguiu contar um longe espaço de tempo em um texto sucinto porém intenso e cheio de detalhes.
    Ah, adoro essa temática!

  4. Um longo e tortuoso caminho a partir de uma imagem em uma concisa, abrangente e limpa narrativa. O exagero dramático fica por conta da imagem que sugere.

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