Pores

Em uma casa cercada por três prédios qualquer nesga de luz é motivo de alegria. A curta jornada em busca do sol começa no quarto ao lado do meu, pela manhã e termina aqui, ao meio dia, poucas horas em que todos se espremem nos cantos das camas.

O plano sempre é viver a manhã toda com o que está a esse alcance: água, controle remoto, um pacote de biscoito quase no fim, nada muito além disso. Tudo ao redor tem que se ajeitar à quase vontade única de nada das manhãs. Tudo tem que se adaptar à extensão das pernas e braços, até, no máximo, às extremidades dos dedos.

Dia desses a luz acabou. “Ok, eu ainda posso ficar deitada”. Deixei o edredom de lado e fui me adaptando lentamente às posições do sol, minhocando pela cama feito uma criança de dois anos se enroscando na mãe quando está com fome. Há tempo de perceber que sou uma péssima dona de casa: uma penugem de poeira se alastra por todos os móveis. Penso em levantar e pegar o espanador, mas o sol acaba de abaixar um pouco e nunca me pareceu tão agradável. Tiro as meias e olho a brancura desses pés que nunca veem o sol, pés que vivem dentro de tênis e serão escravos eternos das sapatilhas devido à falta de jeito de quem os tem. Me lembrei da menina que disse uma vez, ao olhar durante muito tempo para os meus pés, que eu os tinha e às unhas das mãos de mais bonito e eu respondi “sério que não são os meus óculos?”. Olhei em volta do quarto procurando alguma coisa que me lembrasse mais dela e achei uma pinha que ela apanhou em uma das poucas vezes em que aceitei caminhar na lagoa. Sinto saudades do tempo em que ela olhava para os meus pés e falava sobre eles e sobre como eu não gosto de andar, que por isso eles eram bonitos. 

Sempre lamentei nunca conseguir ver o pôr-do-sol daqui. Me queixei sobre isso com meu pai em um dia frio e ele me achou uma boba, respondendo: “Você tem a cor do pôr-do-sol em você. É só tapar o sol com as duas mãos justapostas e aproxima-las até quase tocarem seu rosto. Todo mundo tem, tá vendo? Não precisa se lamentar e nem  esperar o fim do dia para ir até à lagoa, pode ver a hora que quiser”.

“Meu pai é um homem triste”, pensei. Quando ele saiu do quarto esperei que desse um tempo e meti as mãos no rosto pra ver se funcionava. Fiquei quase uma hora observando a cor que surgia entre os dedos, uma quase impalpável existência da qual pouco conseguia entender. Os contornos dos dedos pareciam estar suspensos por algo de ordem realmente etérea, como se orbitassem lugares infinitos em menos de um milímetro de espessura. Os dedos conseguem absorver em laranja aquilo que, se visto assim por longo tempo, pode vir a ser a imagem definitiva da lembrança.

No dia em que as coisas se fixarem finalmente, a última coisa deveria ser um pôr-do-sol. Tudo o que pudesse ser lembrado, a partir de então, seria sempre da forma daquele dia e de antes dele. Da mesma forma, e com um pôr-do-sol.

*

– Qual é a cor mais bonita, pra você?

– A cor laranja de quando o sol reflete a pele.

– E o que você enxerga?

– Você, com um pôr-do-sol.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em tereza alves

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s