Arquivo do mês: agosto 2011

a janela

o pôr-do-sol visto pela rua alagoas,

é  o mesmo que vejo há dez anos, numa janela tão fixa quanto transitória. não é a mesma janela dos meus onze, doze – tão miúda, mas daquela que chamava de minha vista; decorrido um tempo, efêmero como esta época, a vista continuou – como continua – sempre a mesma, e a janela se abriu até onde achou paredes.

poucas vezes me sinto em casa nos diversos cômodos do apartamento. me sinto em objetos que permaneço. na cama quando tem o vestígio de um cochilo de fim de tarde e se encontra amarrotada, no chão quando se mostram dispostos calçados e tenho de driblá-los para fazer a travessia até o computador, quando nele vejo algum filme em qualidade baixa e o pauso para fazer algum lanche com os poucos ingredientes que conheço da cozinha, onde só habito as duas primeiras prateleiras da geladeira; na toalha que manchei com uma pomada para acne que manchou meu cabelo que por poucas vezes é meu realmente, no piano e nas partituras espalhadas e perdidas pelos cômodos que não conheço mas transito sempre, e nos planos incompletos. na janela e nas janelas; aquela da rotineira vista da alagoas, e aquelas de outros horizontes que atravesso.

minha casa é o outro.

mas a casa que busco é aquela primeira que vivi: essa onde moro em objetos e rotinas reconstruirei em cômodos. me sentirei em casa no quarto vazio, na cozinha aonde saberei da disposição de todos os temperos que não saberei usar, na sala onde haverá uma mesa de jantar ao invés do costumeiro colo, e ainda na conhecida janela. não aquela para a rua alagoas, que há tanto já encontrou suas paredes. mas uma outra, com uma vista que me crie novamente a vontade de me reconstruir em outros objetos.

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Arquivado em fábio lamounier

Algum lugar para nos chamar.

Dei para desafiar lógicas geométricas contando quantas paredes e ângulos seriam necessários para cobrir as minhas costas. Ando solando terrenos, trocando lâmpadas em descampados, reverberando o silêncio dos azulejos, seguindo formigas que se fartam do açúcar que errou o copo essa manhã, decifrando rostos nas manchas úmidas dos cantos, tateando outras formas no avesso do colchão – o ressono abrupto no fundo das noites –  plantando esperas à janela em qualquer fim de domingo.

 Só depois de ter ocupado certos espaços é que fui me dar conta de que presença é algo lento e gradual. Num primeiro momento em que se arrisca transgredir o vazio, o oco se adere ao vão entre pele e os ossos, às disritmias do peito, aos intervalos dos sonhos. É necessário deixar-se tomar por outros odores que desconfio escaparem dentre as rachaduras do teto e as fendas dos pisos, ouvir impassível o gotejar involuntário das torneiras, respeitar a pressão dos canos e sorrir para os humores suspeitos dos vizinhos.

Só então é que se dilata alguma permanência e tudo ali parece sujeitar-se à promessa de que retornaremos para atender as palmas no portão e domesticar as precariedades do que ainda não se reconhece: é quando se deslocam mobílias pesadas para reanimar as poeiras ancestrais debaixo das coisas e chamá-las por outros nomes que revelam o peso do teu copo contra a mesa, as cinzas do gesto apressado, o gosto da louça que jaz dentro da pia, o chiado da última faixa do outro lado do disco, o fim do perfume pelos corredores.

Mas circundo ainda nos classificados algumas ofertas duvidosas daquele cheiro de café e as risadas abafadas na cozinha, a descrição confusa do sonho passado e o alívio de acordar sempre no mesmo lugar, a essência adocicada do tabaco de pêssego de seu cachimbo, almoços de esquerda aos sábados, seu bom dia, meu bem e o sorriso calmo de colônias amadeiradas:

 _ São Longuinho, São Longuinho, se eu achar tanto amor, dou três pulinhos.

 Está aqui dentro em qualquer lugar.

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Arquivado em thais monteiro

Apartamentos Mobiliados

Políptico, acrílica sobre tela
69×74 cm

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Arquivado em laura cohen, Uncategorized

Glossário da primeira casa

construo uma casa de palavras

e uma casa de palavras só faz sombra no papel

 

casa: substantivo abstrato radicalmente assentado no ato de memória

a casa dos pais pai e mãe a mãe

casamento: realização da casa como do esquecer o esquecimento

[papel passado

recém-casados filhos do casal

casal de filhos – hoje pode dormir aqui, mas só hoje

chave: a tranca da casa não teme intrusos

teme que se percam os segredos da casa

e casa sem segredo é espaço público é todo resto

cheiro: sopro reunido de cada boca da casa ânimo

linha imaginária aqui é casa ali é todo o resto

tocar na porta de entrada o

leite de rosa da avó leite condensado da mãe

leite e nescau do irmão café com leite do pai

dente de leite: a primeira casa sob o primeiro

travesseiro sob o sono mais longo mais tranquilo

que nunca nunca mais se dorme  Continuar lendo

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Arquivado em leonardo arruda

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Arquivado em rodrigo ladeira

reconstrução

desencaixoto meus amigos e com eles sinto estar em algum lugar conhecido. meus companheiros de dias tranquilos e de todas as noites. passamos por momentos divertidos, ternos, de questões filosóficas e éticas, existenciais, sociais ou simples inspiração. romances, contos, diários, poemas, estão todos aqui.

a presença é reconfortante, mas não preenche todo o vazio. sei que é necessário mais que alguns pertences para criar um ambiente acolhedor, onde eu me reconheça (ou talvez conheça, não sei), mas isto é tudo que tenho. os meus livros são tudo que havia de mim naquela casa.

meus conhecidos não a frequentavam, minhas experiências e meus sonhos não estavam lá, assim como eu nunca estive – verdadeiramente estive. mas eles sim, estes objetos, estes amontoados de papéis, marcados por tanta beleza e sordidez, que hoje não  são liberdade e literatura, mas simbolizam aquilo que conseguiu sobreviver de mim em mim.

não sobrou muita coisa e não sei ao certo se seria melhor se houvesse. o tempo todo estive em luta; brigando para não ser moldada, para não ser diminuída por um único fardo, para não ser definida por um único ponto de vista, para não ser classificada. a minha vida inteira eu tive de afirmar e reafirmar o direito de ser, o direito de poder ser. ser o que? ser tudo, ser nada, não sei. ainda não pensei.

então me empenhei no desapego. o desvencilhar foi tudo que fiz com alguma certeza, conscientemente. o desprendimento mais difícil não é o sentimental, como se pode acreditar, mas sim aquilo se aprende a compreender como um eu.

o apartamento é claustrofóbico e velho, ainda não consigo o chamar de meu. mas é uma possibilidade… uma possibilidade diante de tudo que fui e não sou mais.

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Arquivado em camila rodrigues

minha casa sou eu

I.

II.

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Arquivado em julian campos