Arquivo do mês: setembro 2011


“não existimos. tudo nos afeta”

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Arquivado em ana paula garcia

Aconteceu em 26 de setembro de 2011

Porque tudo no mundo acontece – Cartola

Acordo, não tomo café. Não tenho o que escrever. E escrever quando não se quer escrever assim como olhar a fotografia que não se quer olhar é fixar-lhe uma sorte; é dar-lhe um destino; é negar-lhe as cem possibilidades abertas para outras cem variações de alegria – e é esta a conclusão provisória que até a última linha irá se inverter. Escrever como escrevo hoje é sepultá-la, ainda jovem, vítima de um câncer de pâncreas ou de esôfago ou de pele e dar-lhe um noivo suicida ou recém-casado com a melhor amiga ou levemente triste por um grande amor perdido até que já não existam grandes amores ou passem a doer ainda mais. Ou dizer-lhes que o casal infelizmente terminaria na semana seguinte por não concordar sobre o que fazer com shows ou comédias românticas nas noites de sábado ou com a gravidez ou com a bolsa de estudo para Irlanda ou com o cargo de gerência no Rio Grande do Sul, motivos mais secretos daquele sorriso. Ou vê-los assinando o divórcio amigável em 26 de setembro de 1989, isto é, exatos sete anos, cinco meses e dezesseis dias ou exatos vinte e dois anos antes que alguém tornasse a olhá-los procurando – também – algum sentido. Ou o procurariam os advogados dela, acostumados a segundas esposas ou secretárias ou prostitutas ou travestis ou ksados discretos do chat ou a dívidas ou a hematomas ou a parentes que roem alianças, e, sobre isto, invariavelmente a aconselharia a mãe: “pensa nos teus filhos”. Ou ouvir um deles, os filhos, enquanto encaixota a mudança, chamar a atenção dos demais dizendo com curiosidade para a fotografia: “o pai era assim?” ou “quem é ele, mãe?” ou “olha a mãe dando risada”, enquanto a pobre, a mãe, depois do parto ou morte do caçula ou do acidente ou abandono do marido ou da amante – choraria os próximos três anos debaixo do chuveiro ou do travesseiro, artifício já manjado para abafar os soluços. Ou enquanto a pobre, a mãe, cruzaria os olhos esquecidos do porta-retratos deixado rente à cama em que se achava amarrada com lençóis de linho, estas tentativas de delicadeza, estes eufemismos para que familiares abandonem-na ou não se torturem tanto ao imaginá-la, afinal, presa e louca –  depois do parto ou morte do caçula ou do acidente ou abandono do marido ou da amante. Ou, já velha, de fato olharia para o porta-retratos rente à cama e não tentaria esquecê-lo, mas encontrá-lo para além do comentário sempre repetido “olha que moço tão bonito”, dito a ele mesmo, meio surdo, ou a enfermeira ou a ninguém. Ou, já velha, guardaria outras velharias em caixotes no maleiro para não pegar pó e, sentada em frente à TV e ao lado daquele que um dia fora um moço tão bonito, lastimaria: “você não cansa desse futebol?” ou “pra que ficar vendo essa enrolação se você não vai comprar?” ou “isso é tudo porcaria” ou “credo, de desgraça já chega a vida” ou “você não cansa dessas propagandas?” ou “pra que ficar torcendo para estes porcarias que não pagam tuas contas?” ou “isso tudo é enrolação” ou “pelo amor de deus, de desgraça já chega a vida”. E eu, passados exatos vinte e nove anos, cinco meses e dezesseis dias, estaria sinceramente satisfeito em terminar o texto que não quero escrever sobre a foto que não quero olhar com esta frase que, agora, me soa tão lapidar e repito: “de desgraça já chega a vida”. Mas quero entender que alegria é matéria de disciplina. Alegria é a guerrilha mais clandestina, a nossa de todo dia, a menos inglória. Alegria é a trova mais difícil. Garanto-lhes toda e intacta, como missão que a mim me invisto. Poderia negar-lhes as cem possibilidades abertas para outras cem variações – dizia; mas o fato é que alegria não conhece variações, tampouco suas cem possibilidades. Alegria é coisa de estar aqui e agora, não de outra forma. E isto se defende e guarda. É verdade que se poderia muito, mas não quero, não devo fazê-lo, porque certas coisas acontecem e aconteceu em 10 de abril de 1982: duas pessoas sentiam-se inofensivamente alegres e estavam e o foram. Eternamente.

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Arquivado em leonardo arruda

Comecei a arrancar a pele das coisas. Queria ver o que havia debaixo. – Nuno Ramos

I.

Comecei a arrancar a película da fotografia que havia encontrado no fundo do armário.

Eu e minha mulher estamos nos mudando com as crianças para uma casa maior e eu resolvi, ontem, encaixotar tudo o que estava em meu escritório. Comecei pelos livros, documentos, anotações importantes devidamente arquivadas durante os anos. Por último, separei os objetos que estavam no fundo do armário e das gavetas. Objetos inclassificáveis esses, que não ficam expostos na estante, não têm uma gaveta específica ou um arquivo. Ficam soltos pela casa, sem se agruparem, olhando-nos com selvageria.

Adaptador de tomada, caneta tinteiro sem uso, remédio que tomamos para uma doença muito específica, número de telefone anotado em um pedaço de papel rasgado, pilhas, embalagens, lista de compras antiga, cabos, comprovantes de pagamento, marcadores de página, documentos que já expiraram, lápis de cor bege, clipes, borracha suja, pulseira de relógio.

Encontrei uma fotografia nossa. Ela estava grudada no suporte do armário de forma que não se perdesse, mas que também não fosse fácil de ser encontrada por outras pessoas além de mim. Não me lembrava que a havia escondido ali, tantos anos atrás. Tentei me lembrar quando tiramos aquela fotografia, quem éramos, o que vivíamos. Não conseguia me lembrar de nada. A única memória que havia em minha mente era a imagem que estava em minhas mãos. Apenas a memória estática, sem profundidade, sem a história que a circundava. Já deve ter lhe ocorrido isso antes. Pensar que se lembrava de um fato na infância, de tê-lo vivo em sua memória, mas depois de um tempo, quando por acaso mexia em fotografias antigas, percebeu que aquela memória era na verdade a descrição perfeita de um retrato. Você não se recordava do primeiro momento que andou de bicicleta, da primeira viagem que fez à praia, do primeiro castelinho de areia que construiu. Tudo era uma mentira.

Quando puxei a fotografia já colada ali há muitos anos, um pedacinho do papel brilhante ficou grudado no armário, rasgando-a e deixando uma manchinha branca no canto superior da imagem. Era apenas uma fotografia, apenas papel. Comecei a rasgá-la, querendo que o branco se uniformizasse. Era tão frágil. A fotografia, a minha memória, consistia apenas em uma película brilhante colorida sobre um papel grosseiro branco. Já havia arrancado o canto direito inteiro quando me detive. Coloquei o resto da fotografia em meu bolso, sem me decidir o que faria, sem coragem de jogar aquilo fora, sem saber se a guardaria e qual seria o lugar adequado.

II.

Tudo fica à mostra em mudanças, tudo que levamos anos escondendo, tudo que uma camada de poeira levou anos para engolir fica diante de nossos olhos. E depois de escancarar toda a vida para fora dos armários e das dobras da casa, precisamos ainda classificar todas essas memórias que vieram à tona dentro das caixas, para que seja fácil depois recuperá-las, com medo que se percam no trajeto entre a casa antiga e a nova – e uma delas sempre se perderá, sempre haverá o objeto rebelde que não acompanhará a mudança. Os livros mais preciosos, diários, fotografias de uma vida inteira viram apenas “escritório” ou “sala de estar” ou “despensa” ou “miscelânea”. Não saberia em qual dessas classificações estaria aquela fotografia. Seria a classificação mais secreta, mais íntima dentro de mim. Seria arquivada embaixo da minha pele. Resgatei a fotografia e me pus a olhá-la. Tentei adivinhar como ela estaria hoje, como estaria o seu cabelo, se usaria ainda o brinco que lhe dei de aniversário e que foi capturado na imagem, se estaria casada, com filhos. Voltei a fotografia e as minhas conjecturas inúteis para dentro do meu bolso: nada disso importava mais. Decidi-me por grudar a fotografia no canto do armário da nova casa, da mesma forma que a encontrei hoje, deixando que ela adormecesse ali, esquecida e se presentificasse novamente na próxima vez que eu me deparasse com ela, e na outra, e na outra.

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Arquivado em júlia arantes

quando éramos jovens

guilherme franco e iza campos // 2010

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Arquivado em fábio lamounier

Gaveta

– Encontrei hoje de manhã o trapinho que sobrou do que era o travesseiro dele, quando ainda precisava que eu lavasse suas mãos depois de brincar o dia inteiro na terra. Ele andava com esse mulambo pra baixo e pra cima, nem ligava quando alguém ria… É engraçada a forma como essa falta se materializou hoje. Passar em frente ao cinema, à pracinha do bairro da Raquel, ao sebo em que ele costumava comprar um livro por semana, em frente à estante que comporta esses livros, tudo isso é muito mais doloroso por um dia ter sido rotineiro; é dor imediata e perene. Achar qualquer coisa pela casa é muito cruel. Tudo deveria se dissipar.

*

O homem, com o telefone nas mãos, andava de um lado para outro do cômodo, enrolando o fio. Ficava cada vez mais mudo. Abriu a gaveta do armário escuro ao lado da televisão e começou a mexer displicentemente em papéis que não faziam a menor diferença àquela altura. Repetiu o movimento inúmeras vezes. Ponderava se deveria responder a qualquer coisa dita.

*

– Tenho a sensação, às vezes, de que tudo aqui também passou. O que ainda ficou foi morto pelo silêncio. Enxergo o frio em tudo, até mesmo no sol que bate na cozinha entre nove e onze. O sol, na verdade, é mais morto que qualquer das coisas que adentram essa casa. Lembra que todo domingo o almoço era no canto da sala porque ele queria ver passar os meninos do futebol gritando a vitória no jogo? Ele gostava tanto de futebol. Tive medo dele querer virar jogador e parar de ler. Que bobagem a minha, ele nunca quis jogar.

*

O quarto era estranhamente escuro em relação ao restante da casa. Poderia se dedicar a folhear aqueles papéis desinteressantes durante horas, não fosse o corte que um deles fez em seu dedão direito. Encontrou na mesma gaveta um band-aid, ao lado de uma foto perdida. De sua cor um pouco esverdeada pela pouca exposição ao sol, foi passando gradualmente a um branco um pouco amarelado; mal respirava. O sangue pingava a conta-gotas entre os papéis e ele já não ouvia mais, seja lá o que fosse falado ao telefone.

*

– O que você tem feito? Fiz bolo de cenoura semana passada e pensei em te mandar um pedaço, mas não daria tempo de chegar quentinho do jeito que você gosta. Por falar em chegar, viajo amanhã. Vou visitar a mãe da Beatriz, saber como ela anda também. A gente tem que se entender, né? Você ainda tá aí? Te vi na rua. Quis muito conversar com você, mas fiquei com medo. Você está muito magro, eu deveria ter te mandado o bolo. No aniversário dele era só bolo de cenoura. Vocês dois sempre muito parecidos. As duas pessoas mais engraçadas quando juntas. Qualquer um que os visse acharia que viver é uma bobagem. Nunca ninguém me fez rir tanto.

*

Era difícil precisar quanto tempo se passou entre o período de inércia, após achar o objeto, até o momento em que o homem resolveu pegá-lo e traze-lo para mais perto de seu rosto tentando distinguir as cores. Sem se lembrar ou se importar com o sangue, ele passava lentamente o dedão machucado pelo rosto da mulher no papel. Abaixou o rosto e apertou os olhos tanto que começou a sentir tontura. A água quente que escorria pelo rosto raleava o fio de sangue que atravessava as duas pessoas na foto cada vez mais amassada.

*

Ela interrompeu o que dizia como se qualquer força pra falar àquela hora fosse profana. Quase desejou estar morta em resposta à torrente de lembranças que tornavam cada vez mais difícil prosseguir o andar. Esperou uma última resposta do outro lado e pensava em colocar o telefone de volta no gancho quando escutou um soluço contido.

*

– Sorrir já foi mais fácil.

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Arquivado em tereza alves

O pai

Ela resolveu ampliar a foto, colocar num grande porta-retratos, queria lembrar da felicidade de Lúcio naquele registro antigo. Dificilmente ele ria largo como ela, radiante, mas conhecia aquela timidez feliz que se abria na foto e naquele exato dia de abril de 82. Não sabíamos o sexo, mas já nos sabíamos pais, guardiões, profetas. Não pensávamos no nome, mas imaginávamos calçados, roupinhas, brinquedos.

Era aquele o dia em que todos os íntimos e chegados ficaram sabendo da boa- nova, num churrasco qualquer na casa de sua irmã. “Que beleza, hein? Agora vai ser pai, acabou o sossego”; “Ah, que bênção Lúcio, já pensaram no nome?”; “Que rapidez meu amigo, nem um ano de casados e já vão encomendar um pimpolho?”. Lúcio escutava todos os comentários felizes e infelizes em um incompleto silêncio, apenas dava umas risadinhas a cada três minutos, olhava para ela pensando “vou aguentar nove meses disso?” e tomava mais um gole de cerveja. Estava tão feliz por ser pai, mas queria comemorar a sós aquela alegria desenfreada que ele sabia dosar muito bem para o mundo exterior. Souberam naquela manhã e ela não conseguiu esperar nem mais um dia para anunciar a novidade.

Ele até pediu umas semanas de segredo, apenas os dois curtindo aquela promessa de vida, mas obviamente ela não resistiu. Você queria tanto sair da casa da Ruth, jantar à luz de velas, planejar juntinho o resto dos anos em uma única noite, sonhar acordado até o fim de nossos dias grávidos. Sim, porque você também carregava o meu filho; e eu tive a certeza de que seria o melhor de nós dois para aquele serzinho preso na minha barriga.

Lúcio apertava a mão dela com força, excitado por conta de todos aqueles ruídos sobre o seu futuro filho, as apostas, os palpites, os conselhos. Estava nervoso, ansioso, mas transparecia tranquilidade. Ela, orgulhosa, adorando todas aquelas felicitações. Eu sei, você quer retornar ao nosso refúgio e dormir em cima da minha barriga, mas são pessoas queridas, que certamente querem o nosso bem e irão acompanhar os passos de nossa criança de perto; já estão no fim, a tarde e o churrasco, e logo poderemos ir, amor.

Voltaram para casa e Lúcio desenbestou a falar. Os cursos que imaginou para o filho, a escola ideal, a mesada que iria receber, as viagens de fim de ano. A vida do rapaz ganhou um sentido absolutamente novo, agora que se sabia pai. Alguns meses se passaram e Lúcio era pura empolgação. Mas por que você insiste em dizer que o nosso filho vai ser um homemzinho Lúcio? Pare de comprar coisinhas azuis e dizer que ele será piloto de Fórmula 1. O pai tinha a plena convicção de que o futuro bebê seria um varão.

Em janeiro de 83 nasce Gabriela e Lúcio estremece todo. Permaneceu dois dias calado, chorando sem parar. Mas o que você tem homem? Isso tudo é tristeza porque não nasceu menino? Ela no fundo sabia que não era tristeza e respeitou o silêncio do marido. Se Lúcio pudesse realmente expressar o que sentia, diria que uma menina era demais para o seu coração, que não saberia dar conselhos, que ficaria morrendo de ciúmes a cada desgarro dela, a cada novo namorado, a cada cena de cumplicidade com a mãe. Fale homem, o que você tem, afinal? O teu silêncio está me matando. Lúcio continuou chorando calado e foi dormir sem trocar uma palavra com a mulher.

No dia seguinte, ela estranhou o café posto na mesa, a energia matinal do marido, as janelas todas abertas, o sol entrando solto, descontraído. Lúcio comprou pães, frios, esquentou o leite. Sentou na mesa, fitando-a sem vacilos. Agora eu vou cuidar mais de você, e já estou cuidando também dela. Achei que não daria conta de duas mulheres, entende? Tive um sonho tão bom e, apesar do medo [pavor mesmo], percebi que nada poderia ser mais perfeito que isso. Ah, e o nome dela, de nossa filha, será Gabriela.  Ana começa a chorar.

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Arquivado em luisa soler

verascópio

o mundo se perde, quem não apreende sou eu. cada vez compreende-se menos. acordo todos os dias entendendo menos do que entendi ontem.

então aqui está, sentado na cadeira. dormindo. e os fones de ouvido, porque desde que começou a perder a audição não passa um segundo sem ouvir… qualquer coisa. dorme com a tranquilidade de uma criança, o sossego de quem viveu no mundo o que havia de ser vivido. e agora apenas observa.

não compreendo a tranquilidade. o que conheço é ânsia, medo e também perturbação. sinto-me viva desta maneira, talvez estranha, mas minha. não entendo como seria entender. não consigo imaginar qual o sentimento de existir e compreender a própria existência. ele enxerga a si mesmo, ainda que cego. ele sorri ao sentir o cheiro da velha esposa que se aproxima e sorri ao dormir em uma tarde quente e preguiçosa. ele sorri, simplesmente.

minha exaustão invade e corrói tudo que toco. perco a realidade ao transpor para fora o que se encontrava no interior. construo uma cidade tediosa, amigos superficiais e a total falta de interesse. vejo no mundo o que encontro em mim e depreendo de minha leitura um mundo tumultuado por coisas odiosas.

a cegueira, não a edipiana, mas a incapacidade consciente de ver, faz do mundo um esboço intricado que jamais poderei tocar.

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Arquivado em camila rodrigues