Comecei a arrancar a pele das coisas. Queria ver o que havia debaixo. – Nuno Ramos

I.

Comecei a arrancar a película da fotografia que havia encontrado no fundo do armário.

Eu e minha mulher estamos nos mudando com as crianças para uma casa maior e eu resolvi, ontem, encaixotar tudo o que estava em meu escritório. Comecei pelos livros, documentos, anotações importantes devidamente arquivadas durante os anos. Por último, separei os objetos que estavam no fundo do armário e das gavetas. Objetos inclassificáveis esses, que não ficam expostos na estante, não têm uma gaveta específica ou um arquivo. Ficam soltos pela casa, sem se agruparem, olhando-nos com selvageria.

Adaptador de tomada, caneta tinteiro sem uso, remédio que tomamos para uma doença muito específica, número de telefone anotado em um pedaço de papel rasgado, pilhas, embalagens, lista de compras antiga, cabos, comprovantes de pagamento, marcadores de página, documentos que já expiraram, lápis de cor bege, clipes, borracha suja, pulseira de relógio.

Encontrei uma fotografia nossa. Ela estava grudada no suporte do armário de forma que não se perdesse, mas que também não fosse fácil de ser encontrada por outras pessoas além de mim. Não me lembrava que a havia escondido ali, tantos anos atrás. Tentei me lembrar quando tiramos aquela fotografia, quem éramos, o que vivíamos. Não conseguia me lembrar de nada. A única memória que havia em minha mente era a imagem que estava em minhas mãos. Apenas a memória estática, sem profundidade, sem a história que a circundava. Já deve ter lhe ocorrido isso antes. Pensar que se lembrava de um fato na infância, de tê-lo vivo em sua memória, mas depois de um tempo, quando por acaso mexia em fotografias antigas, percebeu que aquela memória era na verdade a descrição perfeita de um retrato. Você não se recordava do primeiro momento que andou de bicicleta, da primeira viagem que fez à praia, do primeiro castelinho de areia que construiu. Tudo era uma mentira.

Quando puxei a fotografia já colada ali há muitos anos, um pedacinho do papel brilhante ficou grudado no armário, rasgando-a e deixando uma manchinha branca no canto superior da imagem. Era apenas uma fotografia, apenas papel. Comecei a rasgá-la, querendo que o branco se uniformizasse. Era tão frágil. A fotografia, a minha memória, consistia apenas em uma película brilhante colorida sobre um papel grosseiro branco. Já havia arrancado o canto direito inteiro quando me detive. Coloquei o resto da fotografia em meu bolso, sem me decidir o que faria, sem coragem de jogar aquilo fora, sem saber se a guardaria e qual seria o lugar adequado.

II.

Tudo fica à mostra em mudanças, tudo que levamos anos escondendo, tudo que uma camada de poeira levou anos para engolir fica diante de nossos olhos. E depois de escancarar toda a vida para fora dos armários e das dobras da casa, precisamos ainda classificar todas essas memórias que vieram à tona dentro das caixas, para que seja fácil depois recuperá-las, com medo que se percam no trajeto entre a casa antiga e a nova – e uma delas sempre se perderá, sempre haverá o objeto rebelde que não acompanhará a mudança. Os livros mais preciosos, diários, fotografias de uma vida inteira viram apenas “escritório” ou “sala de estar” ou “despensa” ou “miscelânea”. Não saberia em qual dessas classificações estaria aquela fotografia. Seria a classificação mais secreta, mais íntima dentro de mim. Seria arquivada embaixo da minha pele. Resgatei a fotografia e me pus a olhá-la. Tentei adivinhar como ela estaria hoje, como estaria o seu cabelo, se usaria ainda o brinco que lhe dei de aniversário e que foi capturado na imagem, se estaria casada, com filhos. Voltei a fotografia e as minhas conjecturas inúteis para dentro do meu bolso: nada disso importava mais. Decidi-me por grudar a fotografia no canto do armário da nova casa, da mesma forma que a encontrei hoje, deixando que ela adormecesse ali, esquecida e se presentificasse novamente na próxima vez que eu me deparasse com ela, e na outra, e na outra.

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2 Comentários

Arquivado em júlia arantes

2 Respostas para “

  1. o problema não é só classificar a vida em caixotes (literais), é também depois desclassificar e tornar tudo vivível novamente…

    por isso algumas coisas se levam no bolso ou nas mãos…

  2. lucas schiavo

    gostei tanto dessa circularidade, a vida é bem assim mesmo: esconder algo para descobri-lo novamente.

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