Arquivo do mês: outubro 2011

A Transfiguração

 

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Arquivado em julian campos

meu nome

(meu nome, acrílica s/ tela)

Não, meu passado nunca se encaixou no seu todos eles fumavam muito, os adultos tiravam muitas fotos em nenhuma festa de aniversário e todos eles se vestiam da mesma forma, como se fossem de um país comunista nenhum casamento mas eu sabia onde era, e todos tinham alguma permissão para ser como eram, e você também cresceu lá minha casa não ficava ao lado da sua éramos vizinhos e nossos pais nunca chegaram a se cruzar na rua. Você se esquece de si mesmo, e quando toma as fotos dos outros e vê o próprio rosto no rosto de um rapaz que você supõe ser meu irmão, ou simplesmente acredita que éramos irmãos você, aqui, era minha irmã mais velha também enquanto minha mãe teve o azar de conceber apenas uma vez e ter uma fama ruim entre as vizinhas e todos eram muito unidos e felizes ela tinha ataques de histeria, de modo que papai a levava a todos os médicos do mundo e minha família não se fixava nunca em algum lugar nossos pais eram biólogos, por isso que nós viajávamos tanto e eu nunca toquei em você um dia invadimos aquela casa abandonada, coisa de criança e você não sabe como meu corpo é havia uma cama no segundo andar você tem essa cicatriz na barriga por causa de uma apendicite você não sabe nem mesmo o meu nome.

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Arquivado em laura cohen

De estradas meteorologias pequenos testamentos

 
“Ama como a estrada começa” – Mario Cesariny
 
“este eterno trabalho de doadores de sangue
é o que nos defende do massacre” – Mario Cesariny
 
o lençol púrpura destaca-se da cama das janelas das digitais no vidro
dos halls de entrada das portarias e de toda gente sempre desatenta
corre com sua verdade de algodão tingido pelas ruas esgotos
pela grama artificial de um campo de futebol por bambuzais
pelo lajeado pelo promontório pela praia pelos rios canalizados
pelos desertos futuros pelos limites farpados dos desertos futuros
este lençol esticado asseadamente posto por sobre o mundo
e sob o corpo de copos descartáveis, lenços de papel, biscoitos de maisena,
guarda-chuvas, espanadores, lentes de contato, cremes para cabelo
ah o corpo asseado com raiva preparado com raiva revolvido na areia
nos minúsculos buracos de caranguejos com raiva
e quem pisa nesta sua grande enorme cama aberta aos vestígios de corpos
sedimentados em corpos erodidos por corpos carregados por eles
a outros corpos enterrados no grande leito que corre pelos lençóis do mundo
pelos lençóis de todo o mundo crescidos em unhas púrpuras plantadas
nas coxas do caixeiro-viajante que tanto tanto se demora em dor e raiva
em mais dor do que raiva em mais tristeza do que dor
e o sol e a lua e a neblina e os eclipses aquáticos e as loções pós-barba
adaptadas ao uso das artérias
acrescentam ao tecido a cor dessemelhante da melancolia
e ele não dorme e ele não dorme e ele não dorme e ele
estica os braços por entre os vãos arruinados de vitrais constelados
retém o vento que deles escapa e o aprisiona em células de algodão
asseadamente costuradas e retém sob a rota indecisa de seus cometas
os pequenos grãos de areia de pólen de escamas de peles
dos sais de suor de saliva de borralha
de corpos
sedimentados em corpos erodidos por corpos carregados por eles
a outros corpos enterrados na grande lágrima potável inodora insípida incolor
e sacia e redobra a sede dolorosa triste aflita
a lágrima fantasmática de fatalidades sempre recomeçadas respiradas
a fantasmática presença do mundo tornado mundo
que assalta a mente como a curiosidade dos que perguntam
– que horas são será?
e o compasso da terra perfura pequenas cavernas pela tapeçaria da alcova
dessemelhantemente púrpura aberta à toda sorte de poeira
e o compasso da terra perpetua mancamente o ofício de penélope
– por que desfazem a linha aqueles que não esperam por ninguém?
é preciso lembrar que a mãe lacrimosa chora pelos olhos de todas as outras
e ela já nada pode fazer pelo destino de caixeiros-viajantes tristes aflitos
e ela já nada pode fazer pela língua que percorre as palavras ditas neste lençol
as palavras ditas com o afeto dos traídos com o beijo paciente e particularmente
longo dos traídos com a ponta mais delicada do dedo dos traídos e uma vez mais
traídos e para sempre traídos pela presença do mundo tornado mundo
de amor sempre ausente sem pistas contundentes de sua existência
 
é preciso planejar organizar a viagem a qual o corpo não se presta fazer
aquela que mais mortifica os pés e a aorta
aquela que mais arranha a íris seca gasta de pranto
e procurá-lo o amor sob o assoalho de velhas pontes abandonadas
ao sol e à lua e à neblina e aos eclipse aquáticos e às loções pós-barba
procurá-lo o amor em cabeças sem nome e dar-lhe um nome
um apelido afetuoso um murmúrio de êxtase um eco de agonia únicos
vasculhar os poros as raízes dos pelos futuros
recolher de todas pequenas mortes as falanges para novamente
tocar
voltar a tocar e tocar sob pena de insólitos encontros consigo  irreconhecíveis
e sentir o desmaio subir a janela e sentir a janela arremessar pálpebras cerradas
em descrença no coração de tempestades de areia de vendavais magnetizados
e o lençol diferentemente dos resgates policiais não o socorrerá da queda
da precipitação por garoas coaguladas repetidas vezes muito finas
e do corpo caído ainda e sempre vivo aberto à toda sorte de poeira
envolver-lhe no possível sudário levantá-lo no mais alto muro do deserto
e gritar – eis o amor toma aceita-o chore por sobre o seu cabelo
e assim a respiração a mais funda a mais apta a inspirar as estradas
fecha as janelas as cortinas e o caixeiro-viajante já não chora
faz pouco uso dos olhos apenas assiste a um coral rosáceo crescer pela perna
e o sangue obstruído nada acrescenta ao tecido escreve histórias secretas
cartas escondidas e um pequeno testamento
 – o grupo de sons ao fundo indiscerníveis separadamente que recorda a cidade
a solidão o rodamoinho na porta do supermercado o retrovisor sem flor e foco
a criança pela última vez distraída para sempre desatenta seus dentes e mortos
o luto das estradas viradas ao avesso o som de cada alvéolo dilatado em silêncio
o caroço da última ameixa que se sabe sem culpa e a memória acre do seu sumo
 
saboreia-o
cuspa o restante de veneno que lhe restou sob a língua
dá fé ao que te pertence e guarde e deseje morrer se lhe permitir o ridículo
confidencia somente à aurora
ela mesma
às vezes púrpura às vezes amor às vezes lugar algum.
 

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Arquivado em leonardo arruda

uma tentativa

Eu bebi desse leite vermelho duas vezes na mesma semana e compreendi que a minha boca borbulhava sorrisos infantis enquanto o teu sussurro invadia o meu corpo com lasciva estupidez.

Eu bebi desse leite azedo três vezes na mesma semana enquanto respirava o ar pesado dos teus pulmões por debaixo do nosso colchão azul claro.

Eu bebi desse leite verde escuro uma vez no mês inteiro e abaixei a tua cueca imaginando encontrar algo diferente. Encontrei os mesmos pelos encaracolados que, às vezes [e só às vezes] se confundiam com os meus.

Eu bebi, bebi muitas vezes desse leite amarelado que você me servia em domingos débeis e improdutivos, domingos que cheiravam a mal-estar.

Eu bebi e vomitei algumas vezes esse leite marrom que você me oferecia rindo e totalmente nu. Meu corpo era ausência.

Copos de leite, copos de leite sujos com a minha boca. Retiro com as mãos gosmas fedorentas e esfrego no teu rosto tantos rastros de desalento. Bota pra fora esse líquido branco e rasga a minha pele com o vidro bem duro, bem duro e afiado.

Um corte na virilha. O vidro afiado. Você chupa lentamente. Um corte na virilha um vidro afiado lentamente    v    o    c   ê      ch     u     p     a     e  de repente fico desnutrida, destruída, baba nos beiços (qual dos beiços?)

Sim, vários copos de leite, vários cacos de vidro, vários cortes no pé. O vermelho o azedo os pulmões o escuro e o verde o amarelado dos dentes o mal-estar do domingo o vômito marrom e  você rindo nu.

O colchão náo é mais azul claro. O sussurro não mais invade. Minha boca seca tá repleta de feridas. Não chupo mais nada.

Eram quantos copos sobre a mesa? Nenhum. Nenhum e você bebeu oito.

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Arquivado em luisa soler

desenho cadaver

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Arquivado em kiki kiyoto

Proposta para mês de Outubro: Surrealismo

“Mobilizar para a revolução as energias da embriaguez” – em outras palavras: uma política poética?”  walter benjamin

O Surrealismo, próprio do nome, foi um movimento político e artístico conhecido pelo intenso trabalho no campo dos sonhos: propõe através da reestimulação do inconsciente questionar a ordem vigente, através de obras que se desprendem de narrativa, ou mesmo sentido. a obra do surrealismo não se compromete com uma estética e moldes clássicos: ao contrário, ela é uma provocação, quase uma irritação, buscando criar formas sensoriais e de experimentação do espectador com ela. último dos pertencentes às vanguardas artísticas dos anos 20, até hoje deixa parte de seu legado histórico: seja em tendências estéticas que são apropriadas (e desapropriadas), métodos criativos como o ‘cadáver esquisito’, ou mesmo no embasamento ético e força de ruptura, o universo onírico e de estranheza do Surrealismo muito se difundiu na cultura contemporânea. O que proponho para este mês é que façamos do uso destes elementos surrealistas para as criações de outubro – mês, também, da revolução em outubro de eisenstein -, mas de forma completamente livre e, talvez, até desprendida do argumento surrealista. uso de métodos, releituras, provações, enfim, qualquer força de vontade interior e inconsciente que norteie o nosso trabalho durante esse mês.

chien andalou, de luis buñuel e salvador dalí

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Arquivado em fábio lamounier