uma tentativa

Eu bebi desse leite vermelho duas vezes na mesma semana e compreendi que a minha boca borbulhava sorrisos infantis enquanto o teu sussurro invadia o meu corpo com lasciva estupidez.

Eu bebi desse leite azedo três vezes na mesma semana enquanto respirava o ar pesado dos teus pulmões por debaixo do nosso colchão azul claro.

Eu bebi desse leite verde escuro uma vez no mês inteiro e abaixei a tua cueca imaginando encontrar algo diferente. Encontrei os mesmos pelos encaracolados que, às vezes [e só às vezes] se confundiam com os meus.

Eu bebi, bebi muitas vezes desse leite amarelado que você me servia em domingos débeis e improdutivos, domingos que cheiravam a mal-estar.

Eu bebi e vomitei algumas vezes esse leite marrom que você me oferecia rindo e totalmente nu. Meu corpo era ausência.

Copos de leite, copos de leite sujos com a minha boca. Retiro com as mãos gosmas fedorentas e esfrego no teu rosto tantos rastros de desalento. Bota pra fora esse líquido branco e rasga a minha pele com o vidro bem duro, bem duro e afiado.

Um corte na virilha. O vidro afiado. Você chupa lentamente. Um corte na virilha um vidro afiado lentamente    v    o    c   ê      ch     u     p     a     e  de repente fico desnutrida, destruída, baba nos beiços (qual dos beiços?)

Sim, vários copos de leite, vários cacos de vidro, vários cortes no pé. O vermelho o azedo os pulmões o escuro e o verde o amarelado dos dentes o mal-estar do domingo o vômito marrom e  você rindo nu.

O colchão náo é mais azul claro. O sussurro não mais invade. Minha boca seca tá repleta de feridas. Não chupo mais nada.

Eram quantos copos sobre a mesa? Nenhum. Nenhum e você bebeu oito.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em luisa soler

Uma resposta para “uma tentativa

  1. bom exercício esse heim? o de subverter tudo. eu gosto.

    dava pra subverter mais, mas gostei muito desse final aí. de algumas partes gostei menos, exatamente por achar que podiam ir mais além e extrapolar qualquer significado,

    em vez de dizer, por exemplo, que a boca borbulhava sorrisos, dizer que a boca borbulhava pássaros, sei lá. coisa doida mesmo, à la Arnaldo Baptista.

    mas é difícil escrever algo assim sóbrio, pois é.

    seu texto é sempre um incômodo, um bom incômodo.

    um beijo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s