Arquivo do mês: novembro 2011

Nina

Nina tentou fugir, mas Damião segurava o seu braço com tanta força que ela não tinha como. Nina tentou falar, mas o homem não queria conversa:

 Cala a boca, fica quietinha se não te esfolo aqui mesmo.

Nem chorar podia Nina, pois escutava uma ameaça a cada choramingo que soltava. De vez em quando olhava pra cima, a lua cheia parecia aumentar de tamanho, imaginava que aquilo não era bom sinal. O calor. O deserto na estrada.

Haviam deixado o carro do tio há dez minutos e não paravam de caminhar. Nina desistiu de tentar adivinhar onde estava. Queria morrer ali mesmo, com um tiro ou uma facada qualquer, já que não podia matar Damião. Não queria ser mulher, menina, não queria usar vestido, não queria ser sobrinha daquele homem de chapéu e calça semiarriada.

– Vem aqui vem! O tio vai mostrar pra você uma brincadeira nova.

Nina sentia o rosto todo molhado enquanto as mãos pesadas do tio seguravam e empurravam a sua cabeça repetidas vezes. Não conseguia abrir os olhos, mas decidiu fazer aquilo que poderia, talvez, ser o caminho mais curto para o tio matá-la de vez e sem dó. Mordeu bem forte e não soltou aquilo que o tio queria enfiar nela [de vez e sem dó] repetidas vezes; e além do grito, da falta das mãos pesadas em sua cabeça e de alguns passos em volta, ela não ouviu nem sentiu mais nada durante os trinta minutos que preencheram aquela noite.

Acordou com a garganta doendo e as pernas meio dormentes, mas lia no semblante daqueles três homens de pé o terror que se passara.

 –  O que aconteceu? (ela não ousava mencionar o tio. Era medo, assombro).

– Você não lembra de nada?

– Não, não.

Os três se entreolharam, tentaram esconder as mãos cobertas de sangue, mas a lanterna acesa de um iluminou tudo ao redor. Nina buscou o tio com o olhar e apenas encontrou o seu chapéu manchado de um vermelho vivo. Olhou para o vestido amassado e viu uma pequena gota de sangue. Havia desmaiado? E o tio?

– Esqueça isso. Aquele homem foi embora, fugiu e não vai mais voltar. Venha, vamos te levar de volta pra casa.

Nina acompanhou os três estranhos até uma caminhonete antiga, nem pensou no medo, se poderia confiar, acreditar no que diziam. Mataram o tio, pensou repetidas vezes. Tentou olhar para a lua pela última vez naquela noite, mas era como reviver toda a cena anterior na estrada, os passos rápidos de Damião, a respiração ofegante, o braço doendo. A menina ainda tremia um pouco, toda embaralhada de raiva, ódio, asco. Não sabia exatamente como estava viva, mas tinha a infeliz certeza de que aquela lembrança de calor e lua cheia marcaria qualquer caminho que tomasse.

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o medo devora a alma

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Arquivado em julian campos

“E de Ares rompe-escudo

Citeréia pariu Pavor e Temor terríveis

que tumultuam os densos renques de guerreiros

com Ares destrói-fortes no horrendo combate,

e Harmonia que o soberbo Cadmo desposou.”

Hesíodo, Teogonia: a origem dos deuses, 933-7

 

Em um domingo qualquer, resolvi finalmente ler um livro que havia comprado há semanas e ali, no meio de uma das páginas, encontrei um pedaço de papel rasgado, escrito com uma letra muito apressada: “Sinto apenas medo, puro e simples.”. Embaixo dessa frase, em letras menores, escrevi também a data, como se quisesse que aquele pedaço de papel registrasse uma fase da minha vida. Cumpri a minha intenção. Ler aquilo me fez voltar à memória tudo o que aconteceu tanto tempo atrás. Não lembro quando ou qual foi a situação em que escrevi aquela frase, por que coloquei dentro daquele livro, mas o sentimento que senti naquela época voltou. Não voltou inteiro, claro, voltou com uma névoa, um véu o cobria.

Tentei fantasiar a breve cena em que fiz o registro. Havia um tom de desespero e de desabafo. Provavelmente peguei um pedaço de papel que já estava amassado, pronto para ser descartado e escrevi com força, letra por letra. A frase deveria estar impregnada há um tempo em minha mente. Aquele tipo de frases que surgem de repente e que sintetizam todo o nosso estado de espírito, fazendo completo sentido e trazendo um breve temor (temor novamente, essas palavras me perseguem) inerente às descobertas, às nominações dos nossos impulsos mais profundos. Devo ter sentido uma força desumana de externalizar e de postular aquele sentimento. Levantei-me do sofá, dirigi-me à escrivaninha desorganizada, escrevi e deixei o papel no meio de tudo, com um destaque maior. Nos próximos dias, devo ter colocado-o dentro do livro: não queria desfazer-me dele, mas também não queria deixá-lo à mostra. Com um detalhe de que era um livro recém-adquirido, ainda a ser lido, que significaria em uma redescoberta póstuma daquele papelzinho. Não era mais necessário, já havia introjetado aquela informação.

Meu medo não era um receio patológico, não era ausência de coragem, não era um ímpeto de fuga. Era aproximar-me da morte. Era uma ausência de perspectiva e uma antecipação do mal maior. Era um sentimento pré-racional. Eram os suspiros de uma presa arfando pesadamente nos segundos anteriores ao aniquilamento, após ter sua jugular estraçalhada por um animal infinitamente maior e mais forte. Era um lugar intermediário, vazio. Sentia-me morta, sentia-me um desperdício de carne, pele, ossos.

Pergunto-me se isso que eu senti era mesmo medo. Era algo inominável, o que há de mais negativo e mórbido, que eu denominei Medo, com M maiúsculo, naquele papel amassado e de letras desajeitadas. Era um sentimento com o peso da inevitabilidade e da solidão.  Era o matricídio do amor.

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Carta Patética

Meu nome é Leonardo, tenho 27 anos, já não sonho todo dia alguém para mim. Durante cinco noites consecutivas tive o mesmo sonho com pequenas variações; durante cinco noites consecutivas, no mesmo horário com pequenas variações -entre 5 e 5 e meia. Durante cinco noites reatei um namoro de dois anos que já não existe mais. Nestas madrugadas, acordei desolado com a realidade e tive medo. Estes sonhos ainda me ocorrem, ainda que não sequencialmente. O medo também. Amor, sobretudo. E para isso, ainda não achei distração com alguma eficácia.

Medo talvez seja das coisas mais íntimas que carregamos, porque se esconde, porque não se admite, porque se confidencia ao pé do ouvido, olhando para os lados. Eu o admito e quero que seja dito assim de frente não por pretensão de beleza, mas por pretensão de muita sinceridade.

Tenho medo da solidão. Tenho medo de me sentir sozinho, sozinho a ponto de, passados os anos, não reconhecer presença veemente de mim em ninguém. Esta é a solidão que mais me dói. Não é eu estar aqui em meu quarto e do quarto à cozinha e da cozinha à sala e novamente da sala ao meu quarto. E fazer este itinerário sem trocar ou esperar palavra de ninguém – o que de fato não ocorre. A solidão de meus medos é aquela que fala sobre mim nos outros. É o medo de que afinal eu seja tragado pelos velhos modos de vida aos quais todos fatalmente regressam. E quando regresso ao meu, tenho a impressão de que perdi algo no caminho, de que algum membro dói um pouco mais, de que as mãos diminuíram alguns centímetros – já tão pequenas. Passar sempre pareceu tarefa mais simples aos outros do que a mim, talvez por medo.

Escrevo para que o medo não me tome o que quer tomar. Já tive medo de nunca poder amar. Descobri com certo atraso na idade que seria capaz, afinal. Depois tive medo de, amando, não poder desfrutá-lo. Demorei seis anos para que a hipótese se desmentisse. Agora, cada linha, cada palavra, cada letra isolada deste texto fala do medo de, encontrado o amor, nunca mais tê-lo de volta. Porque agora posso falar dos dias que não tive medo, dos dias de sono melhor, dos dias de alegria genuína, dos dias de certeza: afinal, não se está só. Agora posso falar de amor. Escrevo para dizer que te amo, quando já não sei quantas vezes nos repetimos a fórmula especialmente nos últimos dias. Nunca duvidamos dela. É luminoso dizer. É luminoso dizer ao imaginar-se quem escuta e quem acredita. É luminoso achar do fundo de muita tristeza o sorriso acanhado daqueles que dizem porque têm a quem amar, porque já choraram de amor e não de medo.

Gosto do teu jeito de gostar de mim. Gosto dos outros nomes, sobrenomes que ganhei. Sou todos eles agora. E eu que sempre reclamei de minha memória, hoje percebo com que eu a ocupo. Memória é um modo de vida de extrema felicidade, de igual melancolia.

Experimento vontades muito ambíguas como esta de falar quando procuro silenciar todas as minhas vontades. E ainda dói quando já não dói mais, e ainda amo quando vou amar para sempre, e ainda escuto a palavra “bonito” dita em diferentes tons e durações quando o telefone não toca, não vai tocar e o respondo baixinho com palavras de saudade.

Medo talvez seja sentimento simples, primitivo que cresça em complexidade. Amor talvez faça o movimento inverso. E estas linhas não dizem senão de tua mão contra a minha e do balanço engraçado, primitivo dos que caminham juntos.

Meu grande amor, meu melhor amigo, meu bonito, talvez a vida seja um fato consumado, talvez seja uma bobagem. Por isso, agradeço com os olhos no chão os quilômetros de profundidade do teu abraço e a verdade, a inegável verdade de que muita coisa vale o sangue, o suor e a lágrima, porque, afinal, o mais importante tivemos, temos. O monólogo de Orfeu, que já foi resposta à carta de um menino sem medo, termina assim: vai tua vida, pássaro contente, vai tua vida que estarei contigo. É isto que guardo, é sobre isto que adormeço. Falo de pássaros, sim, de mil pássaros de felicidade.

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Haver

“Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.” – Vinícius de Moraes, O Haver.

Esqueci de te dizer ontem que outra boa maneira de parar de revisar o texto e se livrar dele é dedicar o escrito a uma pessoa. Uma história dedicada é íntima e pessoal, única e reservada, sempre como uma carta, e cartas tem esse aspecto difícil de rebobinar, uma vez enviadas, elas se perdem no meio de mãos anônimas, cheia de afeto por dentro, e percorrem sozinhas uma caminho que era meu. Deixar essa carta na mão anônima, ver o envelope consumir a tinta do carimbo do correio, isso é coragem. A covardia da carta está naquilo de ser sempre fácil se dirigir a alguém, mesmo que olhando com timidez nos olhos e dizendo alguma verdade do que simplesmente gritar ao infinito incontrolável. Eu deixo você ver essas entranhas antes de tudo e fechava os olhos porque tinha medo.

Agora, acho que me esgotei, não vou conseguir falar mais nada de bom e neste bom segundo do presente, não sinto mais medo. Mas ainda assim me arrependo sempre de não escrever, meu silêncio é eloquente de maneira oposta à minha vontade. Se penso nisso, aí sim fico com medo, medo até de escrever o seu nome. Há essa boa vertigem no medo, tenho medo a cada vez que escrevo e alguém lê, e medo parece dor de ouvido. Se admitir o medo perdoa tudo, não dizer nada dele me mantém nessa luta diária contra o meu caos da palavra não dita. E ainda assim, você continua me encontrando, repetindo suas inquietações, e me deixando angustiada, mas olho diretamente na sua cara e digo toda a verdade da qual tenho acesso. Se digo seu nome, estou diante de uma coisa enorme. Mas não tenho mais medo, só vertigem. Não tenho mais medo. Pode olhar para mim agora, não tenho mais medo.

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Arquivado em laura cohen

Proposta para mês de novembro: Todos os medos o medo

“atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém” – Al Berto

Minha proposta é uma trapaça. Tenho estudado o tema no meu mestrado e, por isso, vou deixar aqui algumas referências para nos ajudar a pensar.

Minha proposta é uma palavra desdobrável: medo. Este é um convite para que pensemos tanto os medos mais pontuais – a infinita variação de palavras em ‘-fobia’ – até o medo maiúsculo das coisas inomináveis – porque não lhes achamos um nome ou porque o evitamos (por medo).

Este é um convite para o medo inverso do amor do Drummond – “Provisoriamente não cantaremos o amor, / que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. / cantaremos o medo, que estereliza os abraços”; o medo que surge das palavras do António Pina – “Serei capaz / de não ter medo de nada, / nem de algumas palavras juntas?”; e o medo que nos leva às palavras do Castro Mendes – “Quase sempre a angústia / instaura a luz por dentro das palavras / e lhes rouba os sentidos. / Quase sempre é o medo / que nos conduz à poesia.”

Este é um convite, acima de tudo, para dizermos, a partir de nós mesmos, como é tomar-se completamente de medo, dar ao medo o que ele quer, como disse o O’neill: “Ah o medo vai ter tudo / tudo / (Penso no que o medo vai ter / e tenho medo / que é justamente / o que o medo quer)”. A partir de nós mesmos, “fiéis herdeiros do medo”, que, de novo Drummond, povoamos “a cidade. / Depois da cidade, o mundo. / Depois do mundo, as estrelas, / Dançando o baile domedo.”

Gostaria que em novembro aceitássemos a recomendação – a última – do Cesariny: “anunciar com voz fanhosa / cronologicamente cruelmente / todas as horas do pasmo / todos os dias do calendário do medo”

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Arquivado em leonardo arruda

Desassossego

Parecia domingo. Estávamos os dois assentados no sofá da sala, aquele que fica virado para a parede vermelha, em que eu geralmente sento quando quero ler. Eu estava com os pés no estofado, os joelhos perto do corpo, abraçando as pernas. Você, mais relaxado, apenas estava do meu lado, como se esperasse.  Em um determinado momento minha mãe entrou na sala de roupão e óculos. Está tarde, ela disse, vai dormir. Minha mãe tinha razão: era tarde. Que horas seriam? Duas, três, da madrugada? Mas pela segunda vez você estava ali do meu lado e isso não era nada estranho. Passamos um tempo em silêncio. Seu telefone tocou, eu não lembro direito mais, acho que era a sua mãe, querendo saber onde estava você, algo assim, preocupações maternas. Tudo bem mãe, tô aqui com a Ana, já tô voltando para casa, foi o que você respondeu.  Parecia absolutamente normal eu ser para sua família ‘A’ Ana, ou você estar na minha casa até aquele momento. Estendi a minha mão para você, que ainda estava ao telefone e mesmo com uma cara confusa me deu a sua mão de homem, grande e forte, a qual apertei com toda a vontade e a afeição que consegui recolher dentro de mim. Olhando para a parede, você desligou o telefone e assentou de novo ao meu lado. Olha para mim, eu preciso conversar com você, pedi. Quando você se virou, eu finalmente consegui te encarar nos olhos, estava cheia de coisas para dizer, mas, mesmo assim, eu acordei.

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Arquivado em ana paula garcia