Carta Patética

Meu nome é Leonardo, tenho 27 anos, já não sonho todo dia alguém para mim. Durante cinco noites consecutivas tive o mesmo sonho com pequenas variações; durante cinco noites consecutivas, no mesmo horário com pequenas variações -entre 5 e 5 e meia. Durante cinco noites reatei um namoro de dois anos que já não existe mais. Nestas madrugadas, acordei desolado com a realidade e tive medo. Estes sonhos ainda me ocorrem, ainda que não sequencialmente. O medo também. Amor, sobretudo. E para isso, ainda não achei distração com alguma eficácia.

Medo talvez seja das coisas mais íntimas que carregamos, porque se esconde, porque não se admite, porque se confidencia ao pé do ouvido, olhando para os lados. Eu o admito e quero que seja dito assim de frente não por pretensão de beleza, mas por pretensão de muita sinceridade.

Tenho medo da solidão. Tenho medo de me sentir sozinho, sozinho a ponto de, passados os anos, não reconhecer presença veemente de mim em ninguém. Esta é a solidão que mais me dói. Não é eu estar aqui em meu quarto e do quarto à cozinha e da cozinha à sala e novamente da sala ao meu quarto. E fazer este itinerário sem trocar ou esperar palavra de ninguém – o que de fato não ocorre. A solidão de meus medos é aquela que fala sobre mim nos outros. É o medo de que afinal eu seja tragado pelos velhos modos de vida aos quais todos fatalmente regressam. E quando regresso ao meu, tenho a impressão de que perdi algo no caminho, de que algum membro dói um pouco mais, de que as mãos diminuíram alguns centímetros – já tão pequenas. Passar sempre pareceu tarefa mais simples aos outros do que a mim, talvez por medo.

Escrevo para que o medo não me tome o que quer tomar. Já tive medo de nunca poder amar. Descobri com certo atraso na idade que seria capaz, afinal. Depois tive medo de, amando, não poder desfrutá-lo. Demorei seis anos para que a hipótese se desmentisse. Agora, cada linha, cada palavra, cada letra isolada deste texto fala do medo de, encontrado o amor, nunca mais tê-lo de volta. Porque agora posso falar dos dias que não tive medo, dos dias de sono melhor, dos dias de alegria genuína, dos dias de certeza: afinal, não se está só. Agora posso falar de amor. Escrevo para dizer que te amo, quando já não sei quantas vezes nos repetimos a fórmula especialmente nos últimos dias. Nunca duvidamos dela. É luminoso dizer. É luminoso dizer ao imaginar-se quem escuta e quem acredita. É luminoso achar do fundo de muita tristeza o sorriso acanhado daqueles que dizem porque têm a quem amar, porque já choraram de amor e não de medo.

Gosto do teu jeito de gostar de mim. Gosto dos outros nomes, sobrenomes que ganhei. Sou todos eles agora. E eu que sempre reclamei de minha memória, hoje percebo com que eu a ocupo. Memória é um modo de vida de extrema felicidade, de igual melancolia.

Experimento vontades muito ambíguas como esta de falar quando procuro silenciar todas as minhas vontades. E ainda dói quando já não dói mais, e ainda amo quando vou amar para sempre, e ainda escuto a palavra “bonito” dita em diferentes tons e durações quando o telefone não toca, não vai tocar e o respondo baixinho com palavras de saudade.

Medo talvez seja sentimento simples, primitivo que cresça em complexidade. Amor talvez faça o movimento inverso. E estas linhas não dizem senão de tua mão contra a minha e do balanço engraçado, primitivo dos que caminham juntos.

Meu grande amor, meu melhor amigo, meu bonito, talvez a vida seja um fato consumado, talvez seja uma bobagem. Por isso, agradeço com os olhos no chão os quilômetros de profundidade do teu abraço e a verdade, a inegável verdade de que muita coisa vale o sangue, o suor e a lágrima, porque, afinal, o mais importante tivemos, temos. O monólogo de Orfeu, que já foi resposta à carta de um menino sem medo, termina assim: vai tua vida, pássaro contente, vai tua vida que estarei contigo. É isto que guardo, é sobre isto que adormeço. Falo de pássaros, sim, de mil pássaros de felicidade.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em leonardo arruda

5 Respostas para “Carta Patética

  1. a câmera é ruim, o volume baixo, o áudio fora de sincronia, a ideia talvez boba, mas quero falar do medo, assim, por exposição. o drummond já sabia: por isso me dispo, por isso me grito.

  2. Julio Sóla

    Patético: adj. Que comove a alma; que enternece; tocante; triste: cenas patéticas.
    Patético!

  3. erickfigueiredo

    Ninguém está só. Solidão é uma ideia, uma paranoia, uma ilusão.
    Um dia você, vai acordar e ver que os que te amam pode não ser uma multidão, mas estamos aqui.

  4. Natália R.

    Medo do medo voltar.. Medo do medo ocupar os lugares que eram preenchidos pelo amor.

    “eu te amo para começar a amar-te, para recomeçar o infinito”

    “Mas este amor, amor, não terminou,
    e assim como não teve nascimento
    morte não tem, é como um longo rio,
    só muda de terras e de lábios.”

    (Pablo Neruda)

  5. Claudio

    “O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier…”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s