Arquivo do mês: dezembro 2011

Olho.

Já estava acordada há vários minutos, mas permanecia deitada em minha cama. De tempos em tempos ela aparecia em meu quarto gritando para que eu acordasse, que não sabia como eu conseguia viver daquele jeito, que eu não sabia reagir. O sol inundava o cômodo de maneira insuportável, provocando-me uma ligeira dor de cabeça. Lembrei-me do livro que li há exatamente um ano atrás: era um perigo se o sol batesse de maneira errada (ou certa) em meus olhos. Levantei-me preguiçosamente, afastando o gato que estava encostado em minhas pernas. Meu corpo inteiro doía, meus músculos todos contraídos. Acho que não sei mesmo reagir.

Sentei-me em frente ao computador e olhei com desânimo para o resto da escrivaninha. Vários livros amontoados a serem lidos. Não havia tomado banho no dia anterior, sentia-me suja, engatinhando-me em lama. E meu cérebro sempre mais rápido que o resto do corpo, sempre me massacrando e agora fazendo coro às vozes dela: É, você não sabe reagir. Peguei o primeiro livro ao alcance das minhas mãos. Comecei a folheá-lo e a lê-lo sem prestar muita atenção, apenas passando os olhos nas letras. “todo animal está no mundo como a água no interior da água”.

Desci a rua da minha casa, quente em exagero e percebi que minhas roupas não eram apropriadas para o verão que castigava. Uma hora e quarenta minutos depois de trânsito, abracei-o e o chamei para sentar no banco mais próximo. Já havia me desacostumado a conversar com as pessoas, depois de tantos dias sozinha em casa. Não sabia bem o que dizer, como iniciar uma conversa. Ele perguntou-me como eu estava, realmente esperando por uma resposta, não o protocolar ‘estou bem e você?’. Varri todo o meu consciente e tentei traduzir em palavras todos os sentimentos que estavam em mim, sem nenhum pudor. Não queria deixar nenhum resto, queria repassar-lhe tudo. Eu era consideravelmente boa nisso. Passava horas deitada em minha cama, olhando fixamente para o teto, tentando escavar-me, tentando categorizar tudo o que coletava. Obviamente eu não conseguia classificar tudo, pois muito do que estava ali não era sequer encontrado, mas sempre me senti na obrigação de continuar escavando e lutando comigo mesma (ou contra). Escrevi posteriormente em meu caderno de anotações que provavelmente aquele era meu grande problema. Construí um muro entre o mundo e eu mesma com a minha linguagem e a minha prepotência científica classificatória. Depois era a vez dele. Eu estava em cima do meu muro tentando classificá-lo também, tentando ajudá-lo. Será que eu estava sendo útil fazendo isso? Queria apenas ouvi-lo. Ficamos por horas conversando em um banco escondido da chuva no meio das árvores, depois em uma lanchonete, depois no meio da chuva, depois em um café, depois nas ruas vazias, depois no meu ponto de ônibus. Ocasionalmente ele tirava um cigarro do bolso e fumava tentando não deixar a fumaça ir até mim.

Tirei a roupa molhada sem vestir outra para me aquecer. Sentei-me no sofá e esperei o corpo compensar a perda de calor sem nenhuma ajuda. Minha pele estava gelada, úmida, pegajosa, como um réptil asqueroso. Em um milésimo de segundo, sem muito aviso, eu simplesmente soube. Saber, verbo intransitivo. Precisamos da ilusão. Existir no interior da água nos massacraria. Decifrei o enigma, ninguém o decifrou mais profundamente do que eu.

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Rage, rage against the dying of the light

Dylan Thomas

Não entendeu o que havia de diferente apesar de ter olhado aquela fotografia durante quarenta minutos. Já haviam se passado dois meses desde que fizera vinte e seis anos, gostava de se fotografar enquanto dançava; “Ajuda a fixar os movimentos” – dizia. Nesse dia eu tinha saído, era final de ano e estava dirigindo a peça de formatura; Montávamos uma adaptação da Gata, de Tennessee Williams, e Brick me fazia beber, nunca fui muito de uísque sem gelo. Chegando em casa tarde da noite, cambaleava subindo os dois lances de escada que separam a porta de entrada e a cama, às vezes tropeçava em Augusto, o gato, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance de escadas, era um bom lugar para se proteger do vento do apartamento que compramos logo que vim de BH, escolhemos pelas janelas – dois janelões que, como combinamos, ficariam sempre abertos; o prédio estrategicamente construído não permitia que uma gota sequer entrasse quando chovia, fecharíamos nos dias que fossem “frios de matar” – dizia me fazendo sorrir com o acento italianado  herdado de sua avó com quem morara a vida toda na zona norte da cidade – e o vento fresco que soprava o dia todo, meu pai havia me deixado uma pequena herança que usamos de entrada no apartamento que era do tamanho certo para nós, um quarto, uma cozinha, um banheiro e uma sala espaçosa – quase sem móveis; uma estante e um espelho – onde trabalhávamos e ele dançava. Estava mais magro, viu na fotografia, olhou-a por quarenta minutos mas não conseguiu entender por que estava tão diferente,  estava muito magro, mal nos víamos, eu chegava exausto em casa, bêbado de uísque, cambaleava escada acima, mal nos olhávamos. Ele dançava quando eu saía, despia-se e dançava, gostava de dançar no escuro, nu, acendia algumas velas, dançava escondido, não queria que eu brigasse, estava muito magro, nos últimos meses perdeu quinze quilos dos dez que ganhara no ano que ficou sem dançar, sempre fora magro, mas tinha os músculos de bailarino, superfície angulosa, a panturrilha, as coxas, carnosas, rígidas, abdome e peito, lindos; era lindo,vistoso, seus cabelos, um mustangue; seus pés, tortos, gastos. Ganhou gordura naquele ano que ficou sem dançar, depois daquelas manchas, agora está magro demais, fraco, por isso dança escondido. Não percebeu o que estava diferente aquele dia em que, suado, fotografou-se, nu, também não o vi, mal nos olhávamos nesses dias de fim de ano. A peça estava ficando boa, os alunos fizeram uma pesquisa maravilhosa e o dramaturgo era um elegante rapaz do curso de letras, amigo de algum dos meninos. Já não saía mais de casa, estava fraco, não podia mais. Se dar ao luxo, de, pegar, alguma coisa. Metrô. Essas coisas.  Saímos à noite algumas vezes,  quando a luz já não lhe fazia bem aos olhos, depois das manchas, passava os dias de cortinas fechadas e dançava escondido, na sala do apartamento que compramos com dinheiro de herança , do meu pai, e de sua avó,  agora já não saíamos mais, fim de ano, ele dançava escondido. Eu saberia que ele dançava, se o tocasse à noite, sentiria o suor seco, os pés pretos da sala empoeirada, morávamos no Centro, a poeira e a fuligem cobriam a sala onde ele dançava nu,  já não tomava banho todos os dias, a água lhe doía. Eu Não via mais a poeira, nem Augusto, chegava em casa cansado e bêbado de uísque, o de Brick, bebíamos todos inclusive o dramaturgo, Artur, de escrita elegante. A casa estava muito escura, não conseguiria enxergar se quisesse, às vezes cambaleava e tropeçava em Augusto, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance para se proteger do vento.  Quando nos mudamos para este apartamento de janelas e vento, combinamos viver sob luz de velas, agora elas já haviam acabado, iluminaram as tardes de dança escondida, não me lembrava de comprar novas, era fim de ano e ele já não saía na rua, estava muito fraco e dançava escondido, no escuro sem velas.  As janelas estão sempre fechadas, venta muito, o dia todo, o frio lhe dói, está muito fraco, Augusto no lugar onde tropecei algumas vezes, agora sem vento, janelas fechadas enquanto dança, no escuro; não entendeu o que estava acontecendo naquela fotografia depois de olhá-la por 40 minutos, eu poderia ter lhe contado, mas não vi nada. Era fim de ano e montávamos a Gata, do Tennessee.

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Proposta para mês de dezembro: O incomunicável

Em algum momento da nossa breve História, foi preciso sair do que é nosso, do próprio corpo, das coisas que se constata com olhos e os outros sentidos. Fosse para articular o esquema de caça daquela noite ou comentar que o céu estava mais azul do que há algumas semanas, fez-se necessário a criação de uma ferramenta para ir ao Outro: a linguagem.

Não é difícil perceber que rodeia em toda a Natureza um halo de inexpressividade. Por exemplo, nas feições embotadas de um sapo quando é devorado por uma cobra ou a de um cervo que, ao beber água, é surpreendido por uma onça e aceita o seu fim sem muito alarde. Nada ali precisa ser comunicado, as situações estão dadas. Somente a nós, humanos, cabe combinar uma série de gestos e expressões visuais ou sonoras (a linguagem) na tentativa de comunicar um dado momento – ou, neste momento, a dor.

Mas vamos ao seguinte exemplo: Supondo que uma pessoa, independente da causa ou modo, tivesse a sua mão ferida. Um ferimento leve, com o qual ela não se deixou morrer, mas também não tentou conviver e guardar pra si essa dor. Esta pessoa se utiliza da linguagem e elenca uma série de outras ferramentas e símbolos (movimentos, gestos, gritos, lágrimas), na busca por convencer os outros a se interessarem por aquele acontecido. É aqui, neste momento, onde reside algo que assombra e marca com ferro a solidão da nossa existência: o fato que, por mais que essa pessoa se empenhe e se utilize dos mais requintados elementos para descrever o tal acidente sofrido com a mão, ninguém nunca chegara perto de sentir o que essa pessoa sentiu. De certa forma, existe um grau de incomunicabilidade entre nós que nunca será superado.

A proposta do mês de dezembro é nos debruçarmos sobre “o incomunicável”. Seja por versos, prosas ou imagens, tentar comunicar algo sobre o incomunicável em nós.

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Arquivado em julian campos