Rage, rage against the dying of the light

Dylan Thomas

Não entendeu o que havia de diferente apesar de ter olhado aquela fotografia durante quarenta minutos. Já haviam se passado dois meses desde que fizera vinte e seis anos, gostava de se fotografar enquanto dançava; “Ajuda a fixar os movimentos” – dizia. Nesse dia eu tinha saído, era final de ano e estava dirigindo a peça de formatura; Montávamos uma adaptação da Gata, de Tennessee Williams, e Brick me fazia beber, nunca fui muito de uísque sem gelo. Chegando em casa tarde da noite, cambaleava subindo os dois lances de escada que separam a porta de entrada e a cama, às vezes tropeçava em Augusto, o gato, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance de escadas, era um bom lugar para se proteger do vento do apartamento que compramos logo que vim de BH, escolhemos pelas janelas – dois janelões que, como combinamos, ficariam sempre abertos; o prédio estrategicamente construído não permitia que uma gota sequer entrasse quando chovia, fecharíamos nos dias que fossem “frios de matar” – dizia me fazendo sorrir com o acento italianado  herdado de sua avó com quem morara a vida toda na zona norte da cidade – e o vento fresco que soprava o dia todo, meu pai havia me deixado uma pequena herança que usamos de entrada no apartamento que era do tamanho certo para nós, um quarto, uma cozinha, um banheiro e uma sala espaçosa – quase sem móveis; uma estante e um espelho – onde trabalhávamos e ele dançava. Estava mais magro, viu na fotografia, olhou-a por quarenta minutos mas não conseguiu entender por que estava tão diferente,  estava muito magro, mal nos víamos, eu chegava exausto em casa, bêbado de uísque, cambaleava escada acima, mal nos olhávamos. Ele dançava quando eu saía, despia-se e dançava, gostava de dançar no escuro, nu, acendia algumas velas, dançava escondido, não queria que eu brigasse, estava muito magro, nos últimos meses perdeu quinze quilos dos dez que ganhara no ano que ficou sem dançar, sempre fora magro, mas tinha os músculos de bailarino, superfície angulosa, a panturrilha, as coxas, carnosas, rígidas, abdome e peito, lindos; era lindo,vistoso, seus cabelos, um mustangue; seus pés, tortos, gastos. Ganhou gordura naquele ano que ficou sem dançar, depois daquelas manchas, agora está magro demais, fraco, por isso dança escondido. Não percebeu o que estava diferente aquele dia em que, suado, fotografou-se, nu, também não o vi, mal nos olhávamos nesses dias de fim de ano. A peça estava ficando boa, os alunos fizeram uma pesquisa maravilhosa e o dramaturgo era um elegante rapaz do curso de letras, amigo de algum dos meninos. Já não saía mais de casa, estava fraco, não podia mais. Se dar ao luxo, de, pegar, alguma coisa. Metrô. Essas coisas.  Saímos à noite algumas vezes,  quando a luz já não lhe fazia bem aos olhos, depois das manchas, passava os dias de cortinas fechadas e dançava escondido, na sala do apartamento que compramos com dinheiro de herança , do meu pai, e de sua avó,  agora já não saíamos mais, fim de ano, ele dançava escondido. Eu saberia que ele dançava, se o tocasse à noite, sentiria o suor seco, os pés pretos da sala empoeirada, morávamos no Centro, a poeira e a fuligem cobriam a sala onde ele dançava nu,  já não tomava banho todos os dias, a água lhe doía. Eu Não via mais a poeira, nem Augusto, chegava em casa cansado e bêbado de uísque, o de Brick, bebíamos todos inclusive o dramaturgo, Artur, de escrita elegante. A casa estava muito escura, não conseguiria enxergar se quisesse, às vezes cambaleava e tropeçava em Augusto, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance para se proteger do vento.  Quando nos mudamos para este apartamento de janelas e vento, combinamos viver sob luz de velas, agora elas já haviam acabado, iluminaram as tardes de dança escondida, não me lembrava de comprar novas, era fim de ano e ele já não saía na rua, estava muito fraco e dançava escondido, no escuro sem velas.  As janelas estão sempre fechadas, venta muito, o dia todo, o frio lhe dói, está muito fraco, Augusto no lugar onde tropecei algumas vezes, agora sem vento, janelas fechadas enquanto dança, no escuro; não entendeu o que estava acontecendo naquela fotografia depois de olhá-la por 40 minutos, eu poderia ter lhe contado, mas não vi nada. Era fim de ano e montávamos a Gata, do Tennessee.

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3 Comentários

Arquivado em guilherme franco

3 Respostas para “

  1. Seja bem vindo, Guilherme!
    Sou uma ex-bailarina que dança sem ninguém ver também, meio frustrada pelo corpo não poder acompanhar mais o que imagino e sinto um prazer de sentir a dorzinha antiga de forçar-se ao máximo.
    Gostei muito. 🙂

  2. Leíner Hoki

    eu tbm tenho umas manchas no corpo. e agora?

  3. Thais M.

    ei guilherme, finalmente te li, hein. só que com detergente,
    que é bom pra limpar certas gorduras no silêncio.

    Seja mais que bem-vindo ao bazar e mande seus textos, capiche?

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