Arquivo do mês: janeiro 2012

bruto

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Arquivado em kiki kiyoto

i.

Sentei-me no banco alto do balcão de alumínio da padaria e fixei os olhos na lista de preços com o logo da Coca-Cola colada na parede suja de gordura. Não lia a placa, apenas fingia que lia, para ter um pouco de tempo e reorganizar a minha mente. O dia estava nascendo, mas não havia sol. O céu antes negro agora ganhava um tom claro de cinza, as ruas do centro da cidade estavam vazias e o ponto de ônibus em frente abrigava duas pessoas sonolentas, apertando os agasalhos contra os seus corpos para escapar do frio. As letras na placa se tornaram manchas negras sem sentido algum e sem aviso uma das garçonetes tomou conta do meu campo de visão, sem dizer nada, sem nenhum sorriso, apenas esperando que eu fizesse o pedido. Um café com leite. A garçonete se virou, sem perguntar se eu gostaria de algo para comer e foi até a máquina grande de café. Pegou um copo lagoinha pendurado no porta-copos, colocou-o embaixo da torneira da cafeteira industrial, acionou-a esperando o líquido negro sair até completar três quartos do copo. Pegou a jarra grande de leite fervente e despejou o líquido em cima do café, lentamente, como se não quisesse perder nenhum instante daquela fusão de matérias. O líquido preto no primeiro momento ainda não permitindo a mistura, depois cedendo a sua transformação de cor e depois o movimento completo resultando no marrom claro. A garçonete trouxe a bebida até mim, colocando-a em cima do balcão. Segurei o copo pelas bordas apenas com dois dedos, soprei um pouco para amenizar a temperatura e dei um pequeno gole. Senti o calor da bebida percorrendo meu trato digestivo e se espalhando por todo meu corpo; apreciando o sabor aconchegante e caseiro da bebida. Demorei-me por vários minutos sorvendo o café com leite, sem pensar em nada, apenas no movimento de levar o copo aos meus lábios até trazê-lo novamente de volta ao balcão. No fim desse ritual, deixei uma nota de dois reais embaixo do copo e me dirigi ao ponto de ônibus, sem saber ainda para onde iria. Sentei-me no banco, olhando para os meus próprios sapatos, pensando em qual direção deveria tomar. Há quase vinte e quatro horas estava perambulando pelas ruas e ainda não me sentia pronta para retornar à minha casa. Continuar lendo

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Arquivado em júlia arantes

Primeiro Nome


“Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado.”
Beto Guedes

Segundo a minha mãe, minhas primeiras palavras foram: colher; Segundo o meu pai foram: papai; Já meu irmão não tem uma opinião ou lembrança definida ao certo. Tudo que ele me disse foi que quando eu contava com, aproximadamente, três anos, uma panela de feijão quente virou em mim e, depois de um certo momento de pânico, ele percebeu, enquanto eu comia o feijão que cobria o meu corpo, que talvez um milagre houvesse acontecido ali. Um milagre, que julgo à luz da razão, como uma panela nem tão quente assim; Segundo minha mãe, isso nunca aconteceu e, contando quase com 30 anos de idade, não tive oportunidade de confirmar com meu pai se a informação procede. Mas, juntando todos os fatos, a crença inabalável dos olhos tão certos de meu irmão e a minha fome ancestral, concluí que possivelmente a minha primeira palavra tenha sido: colher; e, nesse bolo infinito da collocation palatal, que a segunda tenha sido: papá.

Meu pai gosta muito de doce, minha mãe de salgado, meu irmão de batatas e eu de carne; Sabe-se lá por qual cargas d’água sempre gostei muito de bichos, mais especificamente daqueles peludos que necessitam de nós, como esses que toda criança pede de natal e põe um nome. Meu pai e minha mãe tinham aversão a esses bichos em apartamento pequeno e meu irmão, bronquite. Para amenizar a falta, meu pai comprou um pequeno aquário e um livro que explicava a vida dentro dele. Havia peixes de variadas espécies: espada, lebiste, paulistinha e um daqueles cascudos que servem para, naturalmente, limpar o limo que se acumula no fundo do pequeno universo. Eu achava interessante aquela mini versão de peixe-boi que, sem medo algum, se aventurava a grudar sua boca numa sucção vitral a qual resistia impassivelmente aos tremores oriundos dos nós dos dedos de uma criança ávida pela mínima interação.  Continuar lendo

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Arquivado em thais monteiro

Proposta para o mês de janeiro: Animalidade

Comunhão, de Rodrigo Braga

Como muitos trouxeram seus trabalhos acadêmicos para o Bazar, resolvi também trazer o meu para ver o que surge a partir daí. Há uns semestres estou envolvida em uma pesquisa chamada “Animais, animalidade e os confins do humano”. Esse trabalho se propõe a ultrapassar a barreira de textos que vêem os animais apenas como objetos para alegorias (como “A revolução dos bichos”, de Orwell). A matéria de estudo aqui são textos que percebem os animais como sujeitos, que são sensíveis, inteligentes, que têm uma opinião sobre o mundo e que são dotados de uma racionalidade (ainda que diferente da nossa).

Todos nós lembramos da cadela Baleia, de Graciliano Ramos, o Quincas Borba, de Machado de Assis, o bestiário imenso de Guimarães Rosa: esse é o ponto de partida.  Deslocando-me da análise de textos literários e filosóficos, acredito que será interessante ver uma produção artística desse tema com vocês.

Para servir de guia, abaixo estão duas citações e um vídeo (que vocês podem ignorar solenemente também):

“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão do horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do mundo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.” (COETZEE, J. M.  A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 78)

“Nada, para dizer a verdade, nos é mais inacessível do que essa vida animal da qual somos resultantes. Nada é mais estrangeiro à nossa maneira de pensar do que a Terra no seio do universo silencioso, não tendo nem o sentido que o homem dá às coisas, nem o não-sentido das coisas no momento em que desejaríamos imaginá-las sem uma consciência que as refletisse. Na verdade, só arbitrariamente podemos supor as coisas sem a consciência, já que ‘nós’, ‘supor’, implicam a consciência, nossa consciência, aderindo de uma maneira indelével à presença delas. Podemos, se dúvida, nos dizer que essa adesão é frágil, já que a deixaremos de ‘estar lá’, um dia, mesmo, definitivamente. Mas o aparecimento de uma coisa nunca é concebível a não ser em uma consciência substituída da minha, se a minha desapareceu. É uma verdade grosseira, mas a vida animal, a meio caminho de ‘nossa’ consciência, nos propõe um enigma mais inquietante. Ao representarmos o universo sem o homem – o universo onde o olho do animal seria o único a se abrir diante das coisas, não sendo o animal nem uma coisa nem um homem – só podemos suscitar uma visão em que não vemos ‘nada’, já que o objeto dessa visão é um deslizamento que vai das coisas que não têm sentido se estão a sós, ao mundo pleno de sentido implicado pelo homem que dá a cada coisa o seu sentido.” (BATAILLE, G. Teoria da religião. São Paulo: Editora Ática, 1993. pp.21-2)

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