Proposta para o mês de janeiro: Animalidade

Comunhão, de Rodrigo Braga

Como muitos trouxeram seus trabalhos acadêmicos para o Bazar, resolvi também trazer o meu para ver o que surge a partir daí. Há uns semestres estou envolvida em uma pesquisa chamada “Animais, animalidade e os confins do humano”. Esse trabalho se propõe a ultrapassar a barreira de textos que vêem os animais apenas como objetos para alegorias (como “A revolução dos bichos”, de Orwell). A matéria de estudo aqui são textos que percebem os animais como sujeitos, que são sensíveis, inteligentes, que têm uma opinião sobre o mundo e que são dotados de uma racionalidade (ainda que diferente da nossa).

Todos nós lembramos da cadela Baleia, de Graciliano Ramos, o Quincas Borba, de Machado de Assis, o bestiário imenso de Guimarães Rosa: esse é o ponto de partida.  Deslocando-me da análise de textos literários e filosóficos, acredito que será interessante ver uma produção artística desse tema com vocês.

Para servir de guia, abaixo estão duas citações e um vídeo (que vocês podem ignorar solenemente também):

“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão do horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do mundo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.” (COETZEE, J. M.  A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 78)

“Nada, para dizer a verdade, nos é mais inacessível do que essa vida animal da qual somos resultantes. Nada é mais estrangeiro à nossa maneira de pensar do que a Terra no seio do universo silencioso, não tendo nem o sentido que o homem dá às coisas, nem o não-sentido das coisas no momento em que desejaríamos imaginá-las sem uma consciência que as refletisse. Na verdade, só arbitrariamente podemos supor as coisas sem a consciência, já que ‘nós’, ‘supor’, implicam a consciência, nossa consciência, aderindo de uma maneira indelével à presença delas. Podemos, se dúvida, nos dizer que essa adesão é frágil, já que a deixaremos de ‘estar lá’, um dia, mesmo, definitivamente. Mas o aparecimento de uma coisa nunca é concebível a não ser em uma consciência substituída da minha, se a minha desapareceu. É uma verdade grosseira, mas a vida animal, a meio caminho de ‘nossa’ consciência, nos propõe um enigma mais inquietante. Ao representarmos o universo sem o homem – o universo onde o olho do animal seria o único a se abrir diante das coisas, não sendo o animal nem uma coisa nem um homem – só podemos suscitar uma visão em que não vemos ‘nada’, já que o objeto dessa visão é um deslizamento que vai das coisas que não têm sentido se estão a sós, ao mundo pleno de sentido implicado pelo homem que dá a cada coisa o seu sentido.” (BATAILLE, G. Teoria da religião. São Paulo: Editora Ática, 1993. pp.21-2)

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1 comentário

Arquivado em júlia arantes

Uma resposta para “Proposta para o mês de janeiro: Animalidade

  1. lucas schiavo

    ae, vambora! umas dez criações esse mês?

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