estudo sobre o amor antigo

Não sei exatamente por onde começar. Queria te contar algo aleatório antes de começar a falar, até você ficar distraída o bastante pra eu conseguir dizer o que ainda não sei; eu falaria sobre alguma coisa engraçada ou algum filme que vi na noite anterior ou sobre uma banda que é genial ou sobre o final de temporada de uma série que me fez chorar feito uma criança. Talvez, antes de começar a te fazer rir, eu tentasse primeiro te contar a história de alguma menina alemã que corta o cabelo de todos da casa; contaria detalhes sobre um escritório – que não é bem um escritório – que fica entre o segundo e o quarto andar de uma casa pequena na Lapa, onde nunca estive; abriria a janela do quarto pequeno das empregadas de uma mansão em Pittsburgh, para onde uma daquelas personagens quer fugir com a mãe – lugar que não me deixa saber. Depois, para ligar a nossa história a alguma dessas outras pessoas e lugares, tentaria te lembrar de quando fomos comprar quadros na feira para a casa que um dia teremos porque você disse uma vez que a última coisa que você quer é uma casa com paredes vazias; ou do dia em que fizemos coisas que sempre fazemos, mas que por um mínimo gesto diferente vindo de você, eu não soube mais o que fazer e, por um momento, achei estivesse tudo perdido. Eu te lembraria da  música que tocava no carro que atropelou a nossa bicicleta com o cesto cheio de goiaba vermelha, que você apanhou só porque eu gosto delas meio mornas às cinco da tarde, quando o sol parece se arrepender de deixar seu rosto sarapintado ainda mais vermelho durante os nossos passeios na orla; a memória desse dia me faria rir enquanto eu me esforçasse para não esquecer de nada, nem mesmo da verborragia que tive com o motorista daquele Passati que tocava Bob Dylan, enquanto você tentava reunir as goiabas que não tinham sido amassadas de volta no cesto, como se estivesse realmente se sentindo ofendida e eu não desse a mínima para o fato delas estarem no chão; pararia de escrever um pouco para me esforçar e não me esquecer de que esse fora dos dias mais bonitos, desde o caminho de volta, com a bicicleta – e o pneu dianteiro em formato de oito – se contorcendo e convergendo o tempo todo para fora do passeio, à noite que confortou duas esfoladas e foi dócil quando a necessidade de proximidade não deixou que a dor sutil fosse maior que a vontade de permanecerem. À lembrança dos melhores dias, me ocorreria alguma da infância que eu gostaria de te contar porque sei que, se fôssemos amigas, eu te amaria desde sempre; descreveria as inúmeras vezes em que perdi noção de espaço e realidade depois de pedir ao meu pai que me rodasse para que eu sentisse minhas pernas se soltarem do restante do corpo; te contaria sobre a cabana que ele montava todas as noite segurando um cobertor com os pés e as mãos, fingindo que cada pontinho colorido era um planeta. Por fim, te explicaria por meio de alguma analogia boba, que não faço ideia de como te falar que isso tudo sou eu e que agora parece ser você. T.S.Eliot disse – li em algum dos textos que te mandei – que quando um quadro com uma estética nova chega em uma galeria onde estão inúmeros outros quadros, a concepção que aquele traz a esta muda a perspectiva de toda a galeria, alterando irremediavelmente a maneira de ver as outras obras;  os três tempos dessa vida foram alterados desde que a sua presença passou a fazer parte do que guardo de importante, como se tudo tivesse esperado o tempo todo para fazer sentido junto, com você, com o que penso e com o que não vivi e ainda nem conheço. Metade de vida que está inteira. Se agora disser que entende, prometo ser uma curadora zelosa.

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2 Comentários

Arquivado em tereza alves

2 Respostas para “estudo sobre o amor antigo

  1. o estudo sobre o melhor amigo não custa nem uma respiração, nem nada Tereza, o estudo está na nossa cabeça.

  2. Thais M.

    Reblogged this on minimalidadee comentado:

    Bazar

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