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Proposta para o mês de Fevereiro: Anacronismo

O erro de cronologia. Acontece quando um objeto, conceito, costume e outras tantas coisas são colocadas erroneamente no tempo. A ideia surgiu nas aulas de literatura clássica, que por ser a mais distante e menos conhecida dos alunos gerou a discussão de quão equivocadas podem ser nossas leituras acerca de determinados eventos.
Pensar na Julieta mandando um sms para o Romeu e dizendo “segura as pontas que eu já volto” parece muito pouco. O anacronismo interessante é aquele das ideias, dos pensamentos,do tempo com o espaço. Parece sempre um erro, um equivoco do escritor e do pintor, mas e se o causássemos, para efeito de sentido?

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verascópio

o mundo se perde, quem não apreende sou eu. cada vez compreende-se menos. acordo todos os dias entendendo menos do que entendi ontem.

então aqui está, sentado na cadeira. dormindo. e os fones de ouvido, porque desde que começou a perder a audição não passa um segundo sem ouvir… qualquer coisa. dorme com a tranquilidade de uma criança, o sossego de quem viveu no mundo o que havia de ser vivido. e agora apenas observa.

não compreendo a tranquilidade. o que conheço é ânsia, medo e também perturbação. sinto-me viva desta maneira, talvez estranha, mas minha. não entendo como seria entender. não consigo imaginar qual o sentimento de existir e compreender a própria existência. ele enxerga a si mesmo, ainda que cego. ele sorri ao sentir o cheiro da velha esposa que se aproxima e sorri ao dormir em uma tarde quente e preguiçosa. ele sorri, simplesmente.

minha exaustão invade e corrói tudo que toco. perco a realidade ao transpor para fora o que se encontrava no interior. construo uma cidade tediosa, amigos superficiais e a total falta de interesse. vejo no mundo o que encontro em mim e depreendo de minha leitura um mundo tumultuado por coisas odiosas.

a cegueira, não a edipiana, mas a incapacidade consciente de ver, faz do mundo um esboço intricado que jamais poderei tocar.

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reconstrução

desencaixoto meus amigos e com eles sinto estar em algum lugar conhecido. meus companheiros de dias tranquilos e de todas as noites. passamos por momentos divertidos, ternos, de questões filosóficas e éticas, existenciais, sociais ou simples inspiração. romances, contos, diários, poemas, estão todos aqui.

a presença é reconfortante, mas não preenche todo o vazio. sei que é necessário mais que alguns pertences para criar um ambiente acolhedor, onde eu me reconheça (ou talvez conheça, não sei), mas isto é tudo que tenho. os meus livros são tudo que havia de mim naquela casa.

meus conhecidos não a frequentavam, minhas experiências e meus sonhos não estavam lá, assim como eu nunca estive – verdadeiramente estive. mas eles sim, estes objetos, estes amontoados de papéis, marcados por tanta beleza e sordidez, que hoje não  são liberdade e literatura, mas simbolizam aquilo que conseguiu sobreviver de mim em mim.

não sobrou muita coisa e não sei ao certo se seria melhor se houvesse. o tempo todo estive em luta; brigando para não ser moldada, para não ser diminuída por um único fardo, para não ser definida por um único ponto de vista, para não ser classificada. a minha vida inteira eu tive de afirmar e reafirmar o direito de ser, o direito de poder ser. ser o que? ser tudo, ser nada, não sei. ainda não pensei.

então me empenhei no desapego. o desvencilhar foi tudo que fiz com alguma certeza, conscientemente. o desprendimento mais difícil não é o sentimental, como se pode acreditar, mas sim aquilo se aprende a compreender como um eu.

o apartamento é claustrofóbico e velho, ainda não consigo o chamar de meu. mas é uma possibilidade… uma possibilidade diante de tudo que fui e não sou mais.

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Resquício

Os lugares desertos ditos perigosos são sempre os mais agradáveis, pois ninguém arriscar frequentar. Parques urbanos tornaram-se seus destinos preferidos.

As fugas consistiam, essencialmente, em subverter. Quando há fraqueza profunda, o ato parte da necessidade de reagir da maneira que se mostra possível. O intrínseco, portanto, da rotina noturna de S., era transtornar aquilo que se tornou tão conhecido.

A tipuana – a sua tipuana, somente sua – estava desflorando, de modo que o campo abaixo encontrava-se plenamente amarelo. Sentou-se, apoiando as costas ao tronco; sujou-se ao encostar nas pétalas moídas recentemente. Não era exatamente confortável ou agradável, não entendia por completo o porquê de haver escolhido aquela árvore, dentre tantas, sua favorita.

A questão foi tratada em algumas das noites que viveu lá, as teorias mais lógicas eram duas: tratava-se da única árvore deslocada de todas as outras – e toda incongruência era bem-vinda; suportava todo o peso e beleza em um tronco desproporcional. Contudo, a razão era irrelevante.

S. fugiu, novamente. Encontrava-se onde não podia ser encontrada e no único local que gostava de estar.

A noite estava particularmente quente, não demorou até que adormecesse. Mas o sono leve foi interrompido pela alvorada. A luz fraca que escoava dentre os galhos era como a água que goteja após a chuva: insinuação e resquício. A presença sutil da luz trouxe, da mesma forma, as sensações. A vulnerabilidade, o abatimento, todos os velhos conhecidos de seu quarto, da luz. Sentiu-se novamente acamada, sendo cuidada insistentemente, observada o tempo todo.

S. fugiu e, como em todas as manhãs, a luz amarela veio em sua busca. A luz, que lhe causara tantos estranhamentos no seu então espaço privado… que reduzira o quarto em um espaço tão conhecido e, portanto, pequeno… era a mesma que o transformara em algo descomunal, pois daquela cama, daquele canto, tudo era impossível.

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Liberdade aos 13

Almeida Torres.

Sem semáforo, sem aquela miserável listra no chão. Se qualquer dia eu for atropelada, minha mãe pode culpar a prefeitura. E esse ponto de ônibus? Esse pau. Esse pau colorido, enfiado na calçada. Eles chamam isso de ponto de ônibus. São Paulo não fez mais aniversário? Porque esses desenhos comemorativos nos ônibus elétricos dos anos… dos anos que passaram há muito tempo, ah… já cansaram.

Pires da Mota.

Contrafluxo. É o nome dessa linha nesse horário, só pode ser. Esse é o único ônibus vazio na cidade às dezoito horas; somente o motorista e sua mistura de trabalho sedentário com cerveja, o cobrador e suas leituras francesas, eu. Acredito que o cobrador seja a única pessoa realmente feliz com seu trabalho… depois do bilhete único. Ele lê, e não por obrigação. Se não fosse o trânsito da via contrária e o bloqueio de cruzamentos, essa viagem duraria dez minutos.

Bueno de Andrade.

Venham para cá, cosplayers. Tragam suas cores para as outras ruas da Liberdade, andem duas quadras. Não vai fazer mal. É mais fácil ser descolado sem precisar lidar com os problemas da sua própria cidade, não é? Ou da sua sociedade, ou da sua cultura. Isso, fujam. Isso mesmo. O bom de usar fantasia é que ninguém espera qualquer senso de realidade de vocês.

Conselheiro Furtado.

Eles nunca entendem as meninas de treze anos. Eles nunca entendem a angústia, a raiva e o medo de ser uma menina de treze anos. Como é difícil ser atraída por meninos e não ter maturidade emocional para lidar com eles. Como é possível estar velha demais para brincar e nova demais para ter alguma opinião. Como é incompreensível a necessidade de vestir uma máscara… sem nem saber qual deveria ser a sua. Hoje serei a aluna nota dez ou aquela que fugiu de casa? Não tem outra opção? Ou eu não posso ser as duas? Pare de olhar pra mim.

Boa Vista.

Claustrofóbica.

Libero Badaró.

Eu nunca vou conseguir falar isso. Incrível que alguém realmente tenha se chamado assim. Imagine na escola e os amigos. O Venceslau e o Abelardo chamando o… naquela época não devia ser estranho, pensando bem.

Viaduto do Chá.

Quantas pessoas já se jogaram aqui? É um bonito lugar para morrer. Melhor do que a Galeria, acho. Para vidas sem emoção, nada mais esperado do que não atrapalhar o tráfego. Não fazer diferença, para variar.

O problema das ruas é a vida.

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efêmero

“carnival dogs consume the line
can’t see your face in my mind”
The Doors

“e quantas vezes juntas em uma cama?”, questionou.  o quadro daquelas tardes esvanecia-se. os quentes corpos nus, fatigados, ofegantes após o gozo,  tornaram-se desfocados. genéricos. em sua mente, não conseguia formar uma representação. “os seios, que tanto toquei. não há imagem.”

não havia imagem, apenas sensações. o que restava era o conforto do que um dia fora, a plena convicção de que vivera e amara. as safistas fugas de duas vidas determinadas pela repressão; o intervalo do fastio, do tédio, do nojo. os decisivos resgates, beijos e abraços e olhares sorridentes de subversiva complacência: não havia imagem, mas os sentimentos. um refúgio, um calor.

descansou as flores de cerejeira na lápide. soube então que haviam encontrado as mentiras certas para o epitáfio, as mentiras que classificaram a vida de L. filha amada, esposa dedicada. as caracterizações que confiscaram possibilidades, censuraram desejos. “e aquele insípido marido que lamentou tanto, sem saber que, para você, ele estava morto há muito.”

fim abrupto. o adeus involuntário é mais difícil de ser consentido. e a dor. “em segredo, porque segregado.”

em memória de Daiane Hermann.

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