Arquivo da categoria: thais monteiro

sobbing hiccup jazz.

Às quinze horas de ontem, Rita não fez nenhum comentário numa mesa de bar situado na Haddock Lobo. Às quatorze horas e cinquenta e nove minutos de ontem, Rita esvaziava os pulmões. Às quatorze horas e cinquenta e sete minutos de ontem, Rita engolia cerveja quente. Às quatorze horas e cinqueta e seis minutos de ontem, Rita lembrava de uma piada. Às quatorze horas e cinquenta e quatro minutos de ontem, Rita escutava Renato, o rapaz de personalidade forte e sagacidade invejável, contar um evento que nunca aconteceu. Às quatorze horas e cinquenta e dois minutos de ontem, Rita ouviu Cecília soluçar. Às quatorze horas e cinquenta minutos de ontem, Rita observava Conceição trocar os cinzeiros da mesa ao lado. Às quatorze horas e quarenta e oito minutos de ontem, Rita pensou em ir ao banheiro. Às quatorze horas e quarenta e cinco minutos, Rita precisava falar algo. Às quatorze horas e quarenta e dois minutos de ontem, Rita pensou em se despedir. Às quatorze horas e quarenta minutos de ontem, Rita estava quieta. Às quatorze horas e trinta e sete minutos de ontem, Rita fingia rir do comentário de Ângela. Às quatorze horas e trinta e dois minutos de ontem, Rita acreditou, como se acredita em qualquer coisa, que poderia ter uma boa tarde. Às quinze horas e dois minutos de ontem, Rita consultou a relógio duas vezes. Às dezessete horas e vinte dois minutos de ontem, Rita concluiu que a piada era muito boa e riu, no bairro de Santana, até às dezessete horas e vinte três minutos de ontem.

originalmente publicado em: minimalides

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Primeiro Nome


“Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado.”
Beto Guedes

Segundo a minha mãe, minhas primeiras palavras foram: colher; Segundo o meu pai foram: papai; Já meu irmão não tem uma opinião ou lembrança definida ao certo. Tudo que ele me disse foi que quando eu contava com, aproximadamente, três anos, uma panela de feijão quente virou em mim e, depois de um certo momento de pânico, ele percebeu, enquanto eu comia o feijão que cobria o meu corpo, que talvez um milagre houvesse acontecido ali. Um milagre, que julgo à luz da razão, como uma panela nem tão quente assim; Segundo minha mãe, isso nunca aconteceu e, contando quase com 30 anos de idade, não tive oportunidade de confirmar com meu pai se a informação procede. Mas, juntando todos os fatos, a crença inabalável dos olhos tão certos de meu irmão e a minha fome ancestral, concluí que possivelmente a minha primeira palavra tenha sido: colher; e, nesse bolo infinito da collocation palatal, que a segunda tenha sido: papá.

Meu pai gosta muito de doce, minha mãe de salgado, meu irmão de batatas e eu de carne; Sabe-se lá por qual cargas d’água sempre gostei muito de bichos, mais especificamente daqueles peludos que necessitam de nós, como esses que toda criança pede de natal e põe um nome. Meu pai e minha mãe tinham aversão a esses bichos em apartamento pequeno e meu irmão, bronquite. Para amenizar a falta, meu pai comprou um pequeno aquário e um livro que explicava a vida dentro dele. Havia peixes de variadas espécies: espada, lebiste, paulistinha e um daqueles cascudos que servem para, naturalmente, limpar o limo que se acumula no fundo do pequeno universo. Eu achava interessante aquela mini versão de peixe-boi que, sem medo algum, se aventurava a grudar sua boca numa sucção vitral a qual resistia impassivelmente aos tremores oriundos dos nós dos dedos de uma criança ávida pela mínima interação.  Continuar lendo

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Algum lugar para nos chamar.

Dei para desafiar lógicas geométricas contando quantas paredes e ângulos seriam necessários para cobrir as minhas costas. Ando solando terrenos, trocando lâmpadas em descampados, reverberando o silêncio dos azulejos, seguindo formigas que se fartam do açúcar que errou o copo essa manhã, decifrando rostos nas manchas úmidas dos cantos, tateando outras formas no avesso do colchão – o ressono abrupto no fundo das noites –  plantando esperas à janela em qualquer fim de domingo.

 Só depois de ter ocupado certos espaços é que fui me dar conta de que presença é algo lento e gradual. Num primeiro momento em que se arrisca transgredir o vazio, o oco se adere ao vão entre pele e os ossos, às disritmias do peito, aos intervalos dos sonhos. É necessário deixar-se tomar por outros odores que desconfio escaparem dentre as rachaduras do teto e as fendas dos pisos, ouvir impassível o gotejar involuntário das torneiras, respeitar a pressão dos canos e sorrir para os humores suspeitos dos vizinhos.

Só então é que se dilata alguma permanência e tudo ali parece sujeitar-se à promessa de que retornaremos para atender as palmas no portão e domesticar as precariedades do que ainda não se reconhece: é quando se deslocam mobílias pesadas para reanimar as poeiras ancestrais debaixo das coisas e chamá-las por outros nomes que revelam o peso do teu copo contra a mesa, as cinzas do gesto apressado, o gosto da louça que jaz dentro da pia, o chiado da última faixa do outro lado do disco, o fim do perfume pelos corredores.

Mas circundo ainda nos classificados algumas ofertas duvidosas daquele cheiro de café e as risadas abafadas na cozinha, a descrição confusa do sonho passado e o alívio de acordar sempre no mesmo lugar, a essência adocicada do tabaco de pêssego de seu cachimbo, almoços de esquerda aos sábados, seu bom dia, meu bem e o sorriso calmo de colônias amadeiradas:

 _ São Longuinho, São Longuinho, se eu achar tanto amor, dou três pulinhos.

 Está aqui dentro em qualquer lugar.

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Proposta para o mês de agosto: Reconstrução da Casa.

Uma casa não se constitui somente de paredes rebocadas, cômodos e corredores. A casa, ao mesmo tempo que abriga as pessoas que ali se refugiam das ruas e seus ruídos, revela, em seu interior mais possível, o que se quer guardar com o mais precioso cuidado. Se querem conhecer alguém de verdade, sugiro que se adentrem pela casa e seus espaços e vejam como tudo ali está disposto – e da forma que se dispõem a dizer sobre aqueles que a ocupam.

Diria que a casa de Dostoievsky é fria e úmida e, certamente, se tentarem ligar o sistema de aquecimento, perceberão os canos rangendo entupidos. A casa de Kafka abriga um julgamento no quarto ao lado. A casa de Virginia Woolf será aquela em que se tenta abafar o vazio de seus moradores com festas igualmente vazias. A casa de Gabriel Garcia Marquez abriga as coisas que parecem ter vontade própria por debaixo dos assoalhos que rangem à noite e parafusos que se desencravam sozinhos de suas paredes. A casa de Raduan Nassar é aquela para onde sempre estamos indo, por mais que nos distanciemos dela.

Neste mês, gostaria que reconstruíssem suas casas e nos convidassem a adentrarmos por suas possibilidades e revelassem o que guardam ou escondem ali.

Abram as portas que estamos batendo.

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Dentro dos Olhos Dela

Luz: Comprimentos de ondas perceptíveis ao olho humano. Sete gamas de intensidade que posta à pupila que há pouco se abriu repentinamente, como quem acorda de um sonho ruim, se misturam na definição clara que os olhos confundem como branca: a parede cuja as dobras rápidas de radiação cede à escuridão do vácuo a 299 792 458 metros por segundo: este em que fita a faixa cortando o teto: branco da primeira luz de um dia: que se faz dentro do espaço em que até o momento não se define em imagens, mas em sombras as quais não preenchem o mínimo reconhecimento.

A cada espaço em que a sombra cede à luz, primeiro toma-se a dimensão do corpo dentro dos limites em que os raios incidem no espaço deste primeiro exame: um teto e arestas que descem até a dobra do chão que sustenta todas as coisas que não se revelaram em sua totalidade. Levanta a mão à altura dos olhos e analisa minuciosamente a silhueta dos cinco dedos: cada articulação e protuberâncias nas costas das mãos e gira o pulso para olhar agora o abismo da palma vazia: tateia o braço para desconfiar das continuidades do seu corpo: mão presa ao pulso preso ao braço preso ao ombro preso à cama presa ao outro volume do outro lado do corpo: o outro braço o outro tórax o outro queixo a outra boca presa no sono distante daquela manhã de um dia que não soube como iria continuar incidindo sobre esta arquitetura que se sustenta abaixo dos olhos que procuram as coisas e acompanham o contorno das orelhas: toda carne é comum até que se mova: o outro imóvel como a luz que agora preenche o quarto.

 Fecha os olhos contra a nesga de claridade que percorre as fibras das cortinas: a poeira que dança dentro das pálpebras em seu infinito róseo de contornos azulados.

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na rua que não é esta.

e então você notou que aquela rua em que ontem tombávamos tortos foi tomada da cor que nos denuncia sujos: corpos estranhos que empedra o fluxo dos transeuntes desta clareza tão nítida e tão sólida e tão certo é que fazem dela, esta rua, o meio e não o fim de suas procissões cotidianas e ainda somos ateus. esperemos, então, que a rua em plena força de contração nos aborte em abrigos subterrâneos caso não tenhamos força de nos incrustarmos nos seus cantos, como camuflagem mancha pixo margem e o cheiro fermentado grudando no passo tonto a que chegamos no primeiro indício que não pertencemos mais ao reduto do jornaleiro que nos olha desconfiado ao evitar a graxa nas fendas cutâneas de esquinas esquivas, da epiderme sedenta do nosso gole, da nossa fuga, de um outro lugar para longe desse mesmo em que pessoas chegam a algum lugar, se cumprimentam e continuam a nos pular: poça de lama: indício que há de ter chovido e que ninguém se molhou conosco.

penso aqui, meu caro, quantas ruas eu precisaria vencer até chegar para mais perto de um lugar qualquer, quantas vilas cravadas no meio de quilômetros e distâncias até que se reduziram a passos de quem certo conhece o caminho para as visitas das tardes e os berros da noite, quantos objetos esquecidos na tua cidade para me fazer voltar pelo mesmo caminho tão diferente: _ Bom dia, Sr. Roberto! Tenho certeza que se bater nesta porta um senhor de cara espremida abrirá o mau humor de quem é importunado por um estranho em lugar do seu reconhecimento tão amigo e eu imaginaria ter demorado trezentos e cinquenta anos pra voltar a este mesmo lugar.

talvez só tenhamos passado por três tons desse céu para que a máquina da cidade comece a articular seus ruídos monofônicos, para que sejamos esquecidos a cada conversa no hall de entrada dos edifícios a pleno vapor e neste instante as placas só conseguiriam indicar o quanto estamos perdidos de nosso pouso.

deslocaram uma pedra que se soltou de algum muro e passou a não integrar mais nada além de uma forma tão singular e desfuncional de sua própria ruína. O sol agora se põe sobre nossas cabeças enquanto, recolhidos, esperamos outra chance de enfrentar os  suores de quem saiu e não se lembra mais como voltar para o cheiro fresco dos jardins em que crescemos, dos panos do vestido limpo dela, o tilintar de copos e talheres nas reifeições em comunhão, risos no cômodo ao lado, domingos lentos e calmos e a certeza de que seremos felizes todos dias juntos, amém.

 e por mais longe que alcancemos, meu bem, é pra trás que olhamos e vemos que nos deixamos a cada passo sem qualquer vestígio. nos distraímos com as luzes e com a vontade de permanecer sempre até o nosso encontro na avenida que atravessei e te vi tão de longe voltar sozinho. continuei.

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(no subject)

De: Usuário usuário@dominio.com.qualquer

Para: Outro usuário outrousuário@dominio.com.qualqueroutro

Data: Ontem

Assunto: (sem assunto)

Postado por: domínio.com.qualquer

“Ya somos en la tumba las dos fechas
 del principio y el término, la caja,
 la obscena corrupción y la mortaja,
 los triunfos de la muerte y las endechas.

 No soy el insensato que se aferra
 al mágico sonido de su nombre;
 pienso con esperanza en aquel hombre”

                                (Jorge Luis Borges)

Suspeito agora o espanto com que receberia essa mensagem. Mais espanto ainda seria me imaginar aqui, a essa altura em que nada acontece, tentando acompanhar a velocidade com que tudo me deixa pra trás – havia um tempo em que eu parava para observar, mas hoje eu paro: parei quando a caneta ia pra frente e pra trás como uma espécie de psicografia de um eletro encefalograma: a precisão me escapa em reflexos de um outro que foi preenchendo insuspeitadamente os meus movimentos, os meus humores, os meus bons dias que mastiguei no fundo da língua frouxa que bate e volta no céu da boca enquanto ofendo vizinhos e espanto os zumbidos agudos de crianças que rasgam o que ainda insiste ouvir. Entenda, O., agora não quero ouvir mais nada pois não há som que chame aquele que estava aqui antes deste outro chegar. Se me pedem licença não pedem para esse que nestas linhas parece falar, educadamente ou não, eles se dirigem a alguém que teimou em aparecer no último ato – Ato: deixe-me dizer do que não acontece ao fim dele. Já devo ter mencionado algo algum dia das coisas que não acontecem, de ausências, de insolitudes, do movimento que não se realiza, do corpo no fundo de uma cama, de um rosto no fim da memória: Era o meu que outrora você havia reconhecido como quem entra numa casa vazia e faz erguer a poeira de peles e toques de corpos que já se perceberam e com força violentaram o encontro.

E hoje eu não te encontro mais.

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