i.

Sentei-me no banco alto do balcão de alumínio da padaria e fixei os olhos na lista de preços com o logo da Coca-Cola colada na parede suja de gordura. Não lia a placa, apenas fingia que lia, para ter um pouco de tempo e reorganizar a minha mente. O dia estava nascendo, mas não havia sol. O céu antes negro agora ganhava um tom claro de cinza, as ruas do centro da cidade estavam vazias e o ponto de ônibus em frente abrigava duas pessoas sonolentas, apertando os agasalhos contra os seus corpos para escapar do frio. As letras na placa se tornaram manchas negras sem sentido algum e sem aviso uma das garçonetes tomou conta do meu campo de visão, sem dizer nada, sem nenhum sorriso, apenas esperando que eu fizesse o pedido. Um café com leite. A garçonete se virou, sem perguntar se eu gostaria de algo para comer e foi até a máquina grande de café. Pegou um copo lagoinha pendurado no porta-copos, colocou-o embaixo da torneira da cafeteira industrial, acionou-a esperando o líquido negro sair até completar três quartos do copo. Pegou a jarra grande de leite fervente e despejou o líquido em cima do café, lentamente, como se não quisesse perder nenhum instante daquela fusão de matérias. O líquido preto no primeiro momento ainda não permitindo a mistura, depois cedendo a sua transformação de cor e depois o movimento completo resultando no marrom claro. A garçonete trouxe a bebida até mim, colocando-a em cima do balcão. Segurei o copo pelas bordas apenas com dois dedos, soprei um pouco para amenizar a temperatura e dei um pequeno gole. Senti o calor da bebida percorrendo meu trato digestivo e se espalhando por todo meu corpo; apreciando o sabor aconchegante e caseiro da bebida. Demorei-me por vários minutos sorvendo o café com leite, sem pensar em nada, apenas no movimento de levar o copo aos meus lábios até trazê-lo novamente de volta ao balcão. No fim desse ritual, deixei uma nota de dois reais embaixo do copo e me dirigi ao ponto de ônibus, sem saber ainda para onde iria. Sentei-me no banco, olhando para os meus próprios sapatos, pensando em qual direção deveria tomar. Há quase vinte e quatro horas estava perambulando pelas ruas e ainda não me sentia pronta para retornar à minha casa. Continuar lendo

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Primeiro Nome


“Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado.”
Beto Guedes

Segundo a minha mãe, minhas primeiras palavras foram: colher; Segundo o meu pai foram: papai; Já meu irmão não tem uma opinião ou lembrança definida ao certo. Tudo que ele me disse foi que quando eu contava com, aproximadamente, três anos, uma panela de feijão quente virou em mim e, depois de um certo momento de pânico, ele percebeu, enquanto eu comia o feijão que cobria o meu corpo, que talvez um milagre houvesse acontecido ali. Um milagre, que julgo à luz da razão, como uma panela nem tão quente assim; Segundo minha mãe, isso nunca aconteceu e, contando quase com 30 anos de idade, não tive oportunidade de confirmar com meu pai se a informação procede. Mas, juntando todos os fatos, a crença inabalável dos olhos tão certos de meu irmão e a minha fome ancestral, concluí que possivelmente a minha primeira palavra tenha sido: colher; e, nesse bolo infinito da collocation palatal, que a segunda tenha sido: papá.

Meu pai gosta muito de doce, minha mãe de salgado, meu irmão de batatas e eu de carne; Sabe-se lá por qual cargas d’água sempre gostei muito de bichos, mais especificamente daqueles peludos que necessitam de nós, como esses que toda criança pede de natal e põe um nome. Meu pai e minha mãe tinham aversão a esses bichos em apartamento pequeno e meu irmão, bronquite. Para amenizar a falta, meu pai comprou um pequeno aquário e um livro que explicava a vida dentro dele. Havia peixes de variadas espécies: espada, lebiste, paulistinha e um daqueles cascudos que servem para, naturalmente, limpar o limo que se acumula no fundo do pequeno universo. Eu achava interessante aquela mini versão de peixe-boi que, sem medo algum, se aventurava a grudar sua boca numa sucção vitral a qual resistia impassivelmente aos tremores oriundos dos nós dos dedos de uma criança ávida pela mínima interação.  Continuar lendo

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Arquivado em thais monteiro

Proposta para o mês de janeiro: Animalidade

Comunhão, de Rodrigo Braga

Como muitos trouxeram seus trabalhos acadêmicos para o Bazar, resolvi também trazer o meu para ver o que surge a partir daí. Há uns semestres estou envolvida em uma pesquisa chamada “Animais, animalidade e os confins do humano”. Esse trabalho se propõe a ultrapassar a barreira de textos que vêem os animais apenas como objetos para alegorias (como “A revolução dos bichos”, de Orwell). A matéria de estudo aqui são textos que percebem os animais como sujeitos, que são sensíveis, inteligentes, que têm uma opinião sobre o mundo e que são dotados de uma racionalidade (ainda que diferente da nossa).

Todos nós lembramos da cadela Baleia, de Graciliano Ramos, o Quincas Borba, de Machado de Assis, o bestiário imenso de Guimarães Rosa: esse é o ponto de partida.  Deslocando-me da análise de textos literários e filosóficos, acredito que será interessante ver uma produção artística desse tema com vocês.

Para servir de guia, abaixo estão duas citações e um vídeo (que vocês podem ignorar solenemente também):

“Quem diz que a vida importa menos para os animais do que para nós nunca segurou nas mãos um animal que luta pela vida. O ser inteiro do animal se lança nessa luta, sem nenhuma reserva. Quando o senhor diz que falta a essa luta uma dimensão do horror intelectual ou imaginativo, eu concordo. Não faz parte do mundo de ser do animal experimentar horrores intelectuais: todo o seu ser está na carne viva.” (COETZEE, J. M.  A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 78)

“Nada, para dizer a verdade, nos é mais inacessível do que essa vida animal da qual somos resultantes. Nada é mais estrangeiro à nossa maneira de pensar do que a Terra no seio do universo silencioso, não tendo nem o sentido que o homem dá às coisas, nem o não-sentido das coisas no momento em que desejaríamos imaginá-las sem uma consciência que as refletisse. Na verdade, só arbitrariamente podemos supor as coisas sem a consciência, já que ‘nós’, ‘supor’, implicam a consciência, nossa consciência, aderindo de uma maneira indelével à presença delas. Podemos, se dúvida, nos dizer que essa adesão é frágil, já que a deixaremos de ‘estar lá’, um dia, mesmo, definitivamente. Mas o aparecimento de uma coisa nunca é concebível a não ser em uma consciência substituída da minha, se a minha desapareceu. É uma verdade grosseira, mas a vida animal, a meio caminho de ‘nossa’ consciência, nos propõe um enigma mais inquietante. Ao representarmos o universo sem o homem – o universo onde o olho do animal seria o único a se abrir diante das coisas, não sendo o animal nem uma coisa nem um homem – só podemos suscitar uma visão em que não vemos ‘nada’, já que o objeto dessa visão é um deslizamento que vai das coisas que não têm sentido se estão a sós, ao mundo pleno de sentido implicado pelo homem que dá a cada coisa o seu sentido.” (BATAILLE, G. Teoria da religião. São Paulo: Editora Ática, 1993. pp.21-2)

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Olho.

Já estava acordada há vários minutos, mas permanecia deitada em minha cama. De tempos em tempos ela aparecia em meu quarto gritando para que eu acordasse, que não sabia como eu conseguia viver daquele jeito, que eu não sabia reagir. O sol inundava o cômodo de maneira insuportável, provocando-me uma ligeira dor de cabeça. Lembrei-me do livro que li há exatamente um ano atrás: era um perigo se o sol batesse de maneira errada (ou certa) em meus olhos. Levantei-me preguiçosamente, afastando o gato que estava encostado em minhas pernas. Meu corpo inteiro doía, meus músculos todos contraídos. Acho que não sei mesmo reagir.

Sentei-me em frente ao computador e olhei com desânimo para o resto da escrivaninha. Vários livros amontoados a serem lidos. Não havia tomado banho no dia anterior, sentia-me suja, engatinhando-me em lama. E meu cérebro sempre mais rápido que o resto do corpo, sempre me massacrando e agora fazendo coro às vozes dela: É, você não sabe reagir. Peguei o primeiro livro ao alcance das minhas mãos. Comecei a folheá-lo e a lê-lo sem prestar muita atenção, apenas passando os olhos nas letras. “todo animal está no mundo como a água no interior da água”.

Desci a rua da minha casa, quente em exagero e percebi que minhas roupas não eram apropriadas para o verão que castigava. Uma hora e quarenta minutos depois de trânsito, abracei-o e o chamei para sentar no banco mais próximo. Já havia me desacostumado a conversar com as pessoas, depois de tantos dias sozinha em casa. Não sabia bem o que dizer, como iniciar uma conversa. Ele perguntou-me como eu estava, realmente esperando por uma resposta, não o protocolar ‘estou bem e você?’. Varri todo o meu consciente e tentei traduzir em palavras todos os sentimentos que estavam em mim, sem nenhum pudor. Não queria deixar nenhum resto, queria repassar-lhe tudo. Eu era consideravelmente boa nisso. Passava horas deitada em minha cama, olhando fixamente para o teto, tentando escavar-me, tentando categorizar tudo o que coletava. Obviamente eu não conseguia classificar tudo, pois muito do que estava ali não era sequer encontrado, mas sempre me senti na obrigação de continuar escavando e lutando comigo mesma (ou contra). Escrevi posteriormente em meu caderno de anotações que provavelmente aquele era meu grande problema. Construí um muro entre o mundo e eu mesma com a minha linguagem e a minha prepotência científica classificatória. Depois era a vez dele. Eu estava em cima do meu muro tentando classificá-lo também, tentando ajudá-lo. Será que eu estava sendo útil fazendo isso? Queria apenas ouvi-lo. Ficamos por horas conversando em um banco escondido da chuva no meio das árvores, depois em uma lanchonete, depois no meio da chuva, depois em um café, depois nas ruas vazias, depois no meu ponto de ônibus. Ocasionalmente ele tirava um cigarro do bolso e fumava tentando não deixar a fumaça ir até mim.

Tirei a roupa molhada sem vestir outra para me aquecer. Sentei-me no sofá e esperei o corpo compensar a perda de calor sem nenhuma ajuda. Minha pele estava gelada, úmida, pegajosa, como um réptil asqueroso. Em um milésimo de segundo, sem muito aviso, eu simplesmente soube. Saber, verbo intransitivo. Precisamos da ilusão. Existir no interior da água nos massacraria. Decifrei o enigma, ninguém o decifrou mais profundamente do que eu.

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Rage, rage against the dying of the light

Dylan Thomas

Não entendeu o que havia de diferente apesar de ter olhado aquela fotografia durante quarenta minutos. Já haviam se passado dois meses desde que fizera vinte e seis anos, gostava de se fotografar enquanto dançava; “Ajuda a fixar os movimentos” – dizia. Nesse dia eu tinha saído, era final de ano e estava dirigindo a peça de formatura; Montávamos uma adaptação da Gata, de Tennessee Williams, e Brick me fazia beber, nunca fui muito de uísque sem gelo. Chegando em casa tarde da noite, cambaleava subindo os dois lances de escada que separam a porta de entrada e a cama, às vezes tropeçava em Augusto, o gato, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance de escadas, era um bom lugar para se proteger do vento do apartamento que compramos logo que vim de BH, escolhemos pelas janelas – dois janelões que, como combinamos, ficariam sempre abertos; o prédio estrategicamente construído não permitia que uma gota sequer entrasse quando chovia, fecharíamos nos dias que fossem “frios de matar” – dizia me fazendo sorrir com o acento italianado  herdado de sua avó com quem morara a vida toda na zona norte da cidade – e o vento fresco que soprava o dia todo, meu pai havia me deixado uma pequena herança que usamos de entrada no apartamento que era do tamanho certo para nós, um quarto, uma cozinha, um banheiro e uma sala espaçosa – quase sem móveis; uma estante e um espelho – onde trabalhávamos e ele dançava. Estava mais magro, viu na fotografia, olhou-a por quarenta minutos mas não conseguiu entender por que estava tão diferente,  estava muito magro, mal nos víamos, eu chegava exausto em casa, bêbado de uísque, cambaleava escada acima, mal nos olhávamos. Ele dançava quando eu saía, despia-se e dançava, gostava de dançar no escuro, nu, acendia algumas velas, dançava escondido, não queria que eu brigasse, estava muito magro, nos últimos meses perdeu quinze quilos dos dez que ganhara no ano que ficou sem dançar, sempre fora magro, mas tinha os músculos de bailarino, superfície angulosa, a panturrilha, as coxas, carnosas, rígidas, abdome e peito, lindos; era lindo,vistoso, seus cabelos, um mustangue; seus pés, tortos, gastos. Ganhou gordura naquele ano que ficou sem dançar, depois daquelas manchas, agora está magro demais, fraco, por isso dança escondido. Não percebeu o que estava diferente aquele dia em que, suado, fotografou-se, nu, também não o vi, mal nos olhávamos nesses dias de fim de ano. A peça estava ficando boa, os alunos fizeram uma pesquisa maravilhosa e o dramaturgo era um elegante rapaz do curso de letras, amigo de algum dos meninos. Já não saía mais de casa, estava fraco, não podia mais. Se dar ao luxo, de, pegar, alguma coisa. Metrô. Essas coisas.  Saímos à noite algumas vezes,  quando a luz já não lhe fazia bem aos olhos, depois das manchas, passava os dias de cortinas fechadas e dançava escondido, na sala do apartamento que compramos com dinheiro de herança , do meu pai, e de sua avó,  agora já não saíamos mais, fim de ano, ele dançava escondido. Eu saberia que ele dançava, se o tocasse à noite, sentiria o suor seco, os pés pretos da sala empoeirada, morávamos no Centro, a poeira e a fuligem cobriam a sala onde ele dançava nu,  já não tomava banho todos os dias, a água lhe doía. Eu Não via mais a poeira, nem Augusto, chegava em casa cansado e bêbado de uísque, o de Brick, bebíamos todos inclusive o dramaturgo, Artur, de escrita elegante. A casa estava muito escura, não conseguiria enxergar se quisesse, às vezes cambaleava e tropeçava em Augusto, que se encolhia no primeiro degrau do segundo lance para se proteger do vento.  Quando nos mudamos para este apartamento de janelas e vento, combinamos viver sob luz de velas, agora elas já haviam acabado, iluminaram as tardes de dança escondida, não me lembrava de comprar novas, era fim de ano e ele já não saía na rua, estava muito fraco e dançava escondido, no escuro sem velas.  As janelas estão sempre fechadas, venta muito, o dia todo, o frio lhe dói, está muito fraco, Augusto no lugar onde tropecei algumas vezes, agora sem vento, janelas fechadas enquanto dança, no escuro; não entendeu o que estava acontecendo naquela fotografia depois de olhá-la por 40 minutos, eu poderia ter lhe contado, mas não vi nada. Era fim de ano e montávamos a Gata, do Tennessee.

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Arquivado em guilherme franco

Proposta para mês de dezembro: O incomunicável

Em algum momento da nossa breve História, foi preciso sair do que é nosso, do próprio corpo, das coisas que se constata com olhos e os outros sentidos. Fosse para articular o esquema de caça daquela noite ou comentar que o céu estava mais azul do que há algumas semanas, fez-se necessário a criação de uma ferramenta para ir ao Outro: a linguagem.

Não é difícil perceber que rodeia em toda a Natureza um halo de inexpressividade. Por exemplo, nas feições embotadas de um sapo quando é devorado por uma cobra ou a de um cervo que, ao beber água, é surpreendido por uma onça e aceita o seu fim sem muito alarde. Nada ali precisa ser comunicado, as situações estão dadas. Somente a nós, humanos, cabe combinar uma série de gestos e expressões visuais ou sonoras (a linguagem) na tentativa de comunicar um dado momento – ou, neste momento, a dor.

Mas vamos ao seguinte exemplo: Supondo que uma pessoa, independente da causa ou modo, tivesse a sua mão ferida. Um ferimento leve, com o qual ela não se deixou morrer, mas também não tentou conviver e guardar pra si essa dor. Esta pessoa se utiliza da linguagem e elenca uma série de outras ferramentas e símbolos (movimentos, gestos, gritos, lágrimas), na busca por convencer os outros a se interessarem por aquele acontecido. É aqui, neste momento, onde reside algo que assombra e marca com ferro a solidão da nossa existência: o fato que, por mais que essa pessoa se empenhe e se utilize dos mais requintados elementos para descrever o tal acidente sofrido com a mão, ninguém nunca chegara perto de sentir o que essa pessoa sentiu. De certa forma, existe um grau de incomunicabilidade entre nós que nunca será superado.

A proposta do mês de dezembro é nos debruçarmos sobre “o incomunicável”. Seja por versos, prosas ou imagens, tentar comunicar algo sobre o incomunicável em nós.

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Arquivado em julian campos

Nina

Nina tentou fugir, mas Damião segurava o seu braço com tanta força que ela não tinha como. Nina tentou falar, mas o homem não queria conversa:

 Cala a boca, fica quietinha se não te esfolo aqui mesmo.

Nem chorar podia Nina, pois escutava uma ameaça a cada choramingo que soltava. De vez em quando olhava pra cima, a lua cheia parecia aumentar de tamanho, imaginava que aquilo não era bom sinal. O calor. O deserto na estrada.

Haviam deixado o carro do tio há dez minutos e não paravam de caminhar. Nina desistiu de tentar adivinhar onde estava. Queria morrer ali mesmo, com um tiro ou uma facada qualquer, já que não podia matar Damião. Não queria ser mulher, menina, não queria usar vestido, não queria ser sobrinha daquele homem de chapéu e calça semiarriada.

– Vem aqui vem! O tio vai mostrar pra você uma brincadeira nova.

Nina sentia o rosto todo molhado enquanto as mãos pesadas do tio seguravam e empurravam a sua cabeça repetidas vezes. Não conseguia abrir os olhos, mas decidiu fazer aquilo que poderia, talvez, ser o caminho mais curto para o tio matá-la de vez e sem dó. Mordeu bem forte e não soltou aquilo que o tio queria enfiar nela [de vez e sem dó] repetidas vezes; e além do grito, da falta das mãos pesadas em sua cabeça e de alguns passos em volta, ela não ouviu nem sentiu mais nada durante os trinta minutos que preencheram aquela noite.

Acordou com a garganta doendo e as pernas meio dormentes, mas lia no semblante daqueles três homens de pé o terror que se passara.

 –  O que aconteceu? (ela não ousava mencionar o tio. Era medo, assombro).

– Você não lembra de nada?

– Não, não.

Os três se entreolharam, tentaram esconder as mãos cobertas de sangue, mas a lanterna acesa de um iluminou tudo ao redor. Nina buscou o tio com o olhar e apenas encontrou o seu chapéu manchado de um vermelho vivo. Olhou para o vestido amassado e viu uma pequena gota de sangue. Havia desmaiado? E o tio?

– Esqueça isso. Aquele homem foi embora, fugiu e não vai mais voltar. Venha, vamos te levar de volta pra casa.

Nina acompanhou os três estranhos até uma caminhonete antiga, nem pensou no medo, se poderia confiar, acreditar no que diziam. Mataram o tio, pensou repetidas vezes. Tentou olhar para a lua pela última vez naquela noite, mas era como reviver toda a cena anterior na estrada, os passos rápidos de Damião, a respiração ofegante, o braço doendo. A menina ainda tremia um pouco, toda embaralhada de raiva, ódio, asco. Não sabia exatamente como estava viva, mas tinha a infeliz certeza de que aquela lembrança de calor e lua cheia marcaria qualquer caminho que tomasse.

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Arquivado em luisa soler